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Confiar

Confiar

A pedofilia é um dos males que mais assolam a Internet e tornou-se ainda mais presente nesta época onde os jovens descobrem o sexo cada vez mais cedo, conectados a qualquer parte do globo com o simples toque de um polegar. Confiar (Trust, 2010) trata desta realidade difícil e apresenta um olhar não só externo sobre o assunto, mas também vai fundo nos efeitos que tal ato pode ter sobre uma família.

No longa, Annie (Liana Liberato) é uma adolescente apegada à tecnologia, que passa mais tempo em conversas virtuais do que prestando atenção na realidade ao seu redor. Em seu aniversário de 14 anos, ela ganha de seu pai, Will (Clive Owen), um computador dos mais modernos e estreita relações com um amigo virtual chamado simplesmente de “Charlie” (Chris Henry Coffey). Ele é um homem de meia-idade que aparece na sala de bate-papo da Internet como um adolescente. Não demora muito até que Annie concorde em conhecê-lo pessoalmente e, mesmo descobrindo que ele mentiu sobre sua idade, o estrago já está feito. A menina acaba sendo levada para um motel pelo homem, onde é abusada sexualmente sem que consiga fazer nada para evitar isto.

O filme é tocante e carregado com uma emoção que mistura o drama realista e o desconforto doloroso de acompanhar como a Internet pode tornar um adolescente uma presa fácil dentro de sua própria casa. Não que a Internet seja o problema… não é. O longa deixa claro que as motivações por trás da desgraça de Annie são muito mais humanas do que a simples liberdade de estar escondida atrás de um nickname. O diretor David Schwimmer (sim… o Ross da série Friends) conduz a história de forma simples e direta, trabalhando os acontecimentos sem distrações ou exageros. Charlie é apresentado como um predador frio e calculista, mas que não é um monstro raivoso, e sim um homem que aparenta ser tão normal quanto qualquer outro — o que não fica muito longe da realidade, tendo em vista que muitos pedófilos levam uma vida normal alheia aos seus atos desprezíveis. Já Annie é uma menina ingênua sobre o amor e, principalmente, sobre a sexualidade e sofre com receios comuns a uma adolescente; o filme tenta mostrar o que a faz responder a Charlie mesmo depois de descobrir a verdade por trás do nickname. A atriz Liana Liberato, aliás, é um dos pontos fortes da trama e se mostra uma revelação em seu primeiro papel principal no cinema. Ela carrega uma expressividade nos gestos e no olhar que passam ao mesmo tempo a inocência e a angústia de sua situação. A “Síndrome de Estocolmo” que Annie desenvolve é lançada na tela com paixão e veemência, sem rodeios, e embora pareça muito inverossímil num primeiro momento, mostra exatamente o quão quebrado está o espírito daquela garota. O trabalho de Liberato é tão bom que é impossível não sentir compaixão por ela, mesmo sabendo que suas atitudes e reações são erradas.

Liana Liberato

Do outro lado, temos a família. Annie não é uma solitária e vive num ambiente familiar de descontração e compreensão (aparentes). E, nesta hora, o longa toca noutro tema delicado. Até que ponto deve ir a liberdade e a confiança dos pais nos filhos? Em geral, faz-se necessário haver um equilíbrio, mas é um fato que, nos dias de hoje, equilíbrio familiar é um luxo que poucos conseguem manter, especialmente no que diz respeito aos adolescentes e à internet. Tal problema pode ser facilmente percebido, por exemplo, quando o pai Will deixa passar um momento em que Annie pede desesperadamente por sua atenção, enquanto sugere implicitamente que sua carreira é mais importante que sua filha. Outro caso é quando a mãe Lynn (Catherine Keener) reclama sobre ela comprar um sutiã ousado, uma atitude que não contribui exatamente com o amadurecimento de uma menina que está começando a descobrir sua sexualidade. É aquela velha questão, se um adolescente não aprende valores importantes para a vida em casa, ele acaba indo procurar quem os ensine na rua… e é neste ponto que alguém aparece e se aproveita. A vida de Annie não é perfeita, tampouco disfuncional, porém, entre estes conflitos cotidianos, Charlie se torna uma fonte distante, mas reconfortante, de devoção e apoio, que para alguém inexperiente como Annie acaba assumindo a máscara do amor.

O equilíbrio que falta a família não falta ao diretor Schwimmer. Ele consegue dosar com sabedoria a franqueza necessária para lidar com a questão do abuso sexual de menores e o apoio necessário para evitar que a trama torne-se um relato forçado e sensacionalista. A polícia aparece, mas o roteiro nunca se torna um filme de crime e, não obstante, revela algo que também beira a realidade — muitos pedófilos disfarçam tão bem suas atividades que simplesmente não são pegos. Também é mostrado como muitas pessoas veem com descaso a situação, como fica evidente pela reação que o amigo de trabalho de Will tem ao descobrir sobre o abuso sexual da menina. Aliás, um aspecto a se considerar do roteiro é o pai Will. Mesmo com tudo que está acontecendo com sua família e em sua mente, ele ainda aparece com a mesma habilidade e descontração para apresentar seus projetos, como se nada daquilo importasse. Quando se importa, direcionando sua preocupação de forma errada. A frieza com que ele é apresentado cria uma dificuldade de identificação com sua dor por parte do público. Clive Owen faz um ótimo trabalho, mas a indiferença de seu personagem às vezes causa tanta repulsa quanto o pedófilo. No entanto, ainda assim, é possível perceber que o filme busca algo por trás desta indiferença… algo como a redenção de um pai.

Liana Liberato e Clive Owen garantem força e alma a Confiar, numa história que poderia facilmente ser subaproveitada. Não obstante, David Schwimmer contribui ao tratar o assunto com sensibilidade, enquanto o inteligente roteiro explora as consequências para a família de forma plausível. Sem ser chato ou histérico, ainda nos esfrega na cara verdades perturbadoras sobre o modus operandi dos pedófilos e como enfrentar os efeitos de suas ações.

Confiar vale a pena porque é um filme atencioso, emocionante e que faz pensar.

Nível Exemplar



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  • http://dicaaleatoria.wordpress.com/ Carolina Souza

    Ao ver o anúncio do filme talvez não me chamasse atenção por pensar que poderia ser um filme histérico e/ou sensacionalista, além do fato de eu não seu assim ser assim uma grande fã do Clive Owen (outros quinhentos). Mas diante de uma crítica sensível como essa, fica difícil afastar a vontade de ver esta obra. Ah, também quero ver como o “Ross” se saiu como diretor. #curiosa ;)

  • Marcione

    Obrigada pelo seu olhar sensível sobre este filme,
    estou trabalhando neste tema com meus alunos de 7a série e não tava encontrando o caminho da análise.

    • http://www.nivelepico.com/ Alan Barcelos

      Obrigado você, Marcione!

      Fico feliz de saber que pude ajudar com o texto. ;-)

  • Marcione

    Quando tiver um tempo faz uma análise do filme “Aos 13″. Amizade na adolescëncia.
    Ficarei aguardando…

    • http://www.nivelepico.com/ Alan Barcelos

      Vou procurar o filme para rever. Faz anos desde que vi pela última vez.

      Mas vou escrever alguma coisa sim. O filme é realmente muito bom.

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