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Entrevista com Cláudio Torres, diretor de O Homem do Futuro

Wagner Moura e Cláudio Torres

O Nível Épico foi ao encontro do cineasta Cláudio Torres para uma conversa sobre seu novo filme, O Homem do Futuro (2011), que estreia nos cinemas na sexta-feira (02/09). O bem-humorado diretor falou um pouco sobre suas inspirações e o processo de criação do longa. A trama traz Wagner Moura, Alinne Moraes, Maria Luiza Mendonça, Gabriel Braga Nunes e Fernando Ceylão na história de um cientista maluco que viaja no tempo para tentar evitar que uma tragédia do seu passado mude para sempre a sua vida.

Como se deu a concepção de um filme com uma temática tão pouco explorada no cinema nacional como viagens no tempo?

Cláudio Torres: Eu gosto de cinema fantástico. Eu sou fã de cinema pipoca e vejo filmes de super-heróis, do tipo que vai assistir a estreia do Capitão América (2011) na primeira sessão. Eu nascia em 1963 e naquela época disco voador ainda existia e as pessoas tomavam isso como uma coisa séria. Eu fui criado vendo seriados de ficção-científica na TV. A literatura que eu comecei a ler foi a ficção-científica, como Julio Verne, Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, William Gibson, e ao mesmo tempo, era histórias em quadrinhos na veia, eu sou contemporâneo ao Homem-Aranha, nasci no mesmo ano que ele. Isso está dentro de mim. O primeiro filme que eu fiz foi o Redentor (2004) e ele tinha efeitos especiais mesmo quase dez anos atrás e ele também tinha uma temática fantástica. Agora, o Redentor foi uma comédia um pouco negra. O filme foi muito bem na crítica, as pessoas falam bem dele até hoje, mas ele teve 230 mil espectadores e isso não garante a sobrevivência de um cineasta, pois é difícil levantar o próximo filme se você faz pouca bilheteria. E eu entendi e cheguei a conclusão que todos os personagens eram sórdidos, não tinha amor e tinha um humor muito negro. Quando eu fui fazer A Mulher Invisível (2009), eu fui escrevendo uma comédia menos pesada, mas ainda com grande elemento de pesadelo, porque aquilo tudo é um pouco apavorante e poderia até ser um filme de terror. O personagem é um esquizofrênico, mas eu mantive a rédea numa comédia mais divertida. Não tinha muito dinheiro, mas deu certo e fez bilheteria. Assim, ficou mais fácil de fazer outro filme pensando numa produção maior e mais ousada. Então, me interesso fazer um filme sobre um cara que se encontrava com ele mesmo. A ideia veio um pouco da pergunta: “o que eu diria para mim mesmo 20 anos atrás?” e a viagem no tempo surgiu porque desloca o cara para dois momentos da vida e ele vira dois personagens diferentes. O pano de fundo veio de tudo que já vi, li e produzi.

Quais as inspirações que você buscou para o filme?

Torres: Existem inspirações de todos os tipos desde de Capra (Frank Capra, cineasta famoso por suas comédias na década de 20) até o novo Star Trek (2009), passando pela trilogia De Volta Para o Futuro (1985-1990), os quatros Exterminador do Futuro (1984-2010), Carrie, a Estranha (1976), Efeito Borboleta (2004), Lost (2004) e os nacionais A Dona da História (2004) e A Máquina (2006). O filme de paradoxo de tempo é quase um gênero à parte no cinema. O cinema é o único lugar do mundo onde você pode voltar no tempo, e voltar no tempo é um desejo universal. Todo mundo já desejou em algum momento consertar alguma coisa que fez no passado. É o desejo de voltar e não ter feito e o cinema gosta destas premissas. Quanto mais simples for a centelha que conduz o negócio, mais rica é a resposta.

Alinne Moraes e Cláudio Torres

Você pode falar um pouco do elenco?

Torres: Eu mostrei para o Wagner Moura o primeiro esboço do roteiro e ele topou. Ele queria trabalhar comigo e eu também queria trabalhar com ele, por isso, ele esteve presente desde o começo da produção. Já a Alinne Moraes veio depois. Na verdade, quem faria a Helena era a Ana Paula Arósio, mas um dia ela sumiu e depois descobrimos que ela tinha ido casar… o que fez ela muito bem. Eu fiquei sem uma mocinha durante um tempo e, assistindo a novela do Manoel Carlos (Viver a Vida), eu vi a Alinne interpretando uma tetraplégica e pensei: “ela sabe atuar”, pois a personagem dela era toda limitada e ela mandou bem transmitindo tudo só pelo olhar. A Helena, personagem dela no filme, nos dias atuais, seria algo como a Gisele Bündchen, uma modelo internacional e eu precisava encontrar uma atriz que fosse muito bonita e que o público aceitasse como uma modelo internacional. E a Alinne se mostrou uma companheira de trabalho maravilhosa. O Fernando Ceylão veio fazer um teste para o Botina, o dono do bar. O Otávio era do Gregório Duvivier, que acabou pegando só uma fala no filme, porque ele saiu fora um mês antes da filmagem. Eu fiquei sem um Otávio e quando eu vi o Ceylão fazendo o Botina, pensei: “ele segura fazer o Otávio”. O Ceylão se jogou no filme a fim de aprender a mecânica do cinema e se deu bem. É simpático o que ficou dele no filme, porém ele é mais contido que os outros cavalos, que já estão correndo mais soltos (risos).

Qual a importância da música Tempo Perdido, do Legião Urbana, no filme?

Torres: Desde o começo, eu queria fazer o epicentro da história ao redor de um número musical. O personagem viveria um momento de triunfo, porque cantaria ao lado da musa dele e, logo depois, seria apedrejado e jogado aos leões. Quando escrevi, eu fui pensando no Tempo Perdido, porque eu sou fã de carteirinha do Legião e esta música tem tudo a ver com o filme. Quando foi chegando perto de gravar a cena, o Wagner falou que já tinha acabado de cantar Legião no Vips (2010). Nós chegamos a cogitar outras músicas e tentamos outras coisas, mas o Tempo Perdido ficava ali. Tentamos um Tim Maia, mas quando eles cantaram Legião, foi uma loucura e decidimos que seria ela mesma.

Você acha que essa temática de fantasia e ficção-científica está atraindo mais o público brasileiro do que antigamente?

Torres: Eu espero que o público de hoje esteja mais a fim de ver ficção-científica, porque o filme está para ser lançado. Espero que elas se divirtam. Ao mesmo tempo, eu acho que o Brasil tem uma tradição de realismo fantástico, com Jorge Amado e as próprias novelas. Mas, eu, por exemplo, tenho um roteiro de ficção-científica, vou nos estúdios mostrá-lo, mas eles não se interessam, porque eles dizem que, no Brasil, ficção-científica não dá certo. Eu estou tentando “contrabandear” o tema através da comédia romântica. Vamos ver se dá certo.

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