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Amor a Toda Prova

Amor a Toda Prova

Amor a Toda Prova (Crazy, Stupid, Love, 2011) poderia ser definido como uma “dramédia romântica”, porque traz ingredientes para todos os estilos e gostos: drama, comédia e romance reunidos em uma história que é nada menos do que fantástica. O filme reúne os três gêneros com habilidade, sem, no entanto, pesar na dose com qualquer um deles, provocando uma sensação agradável apesar das agruras que os personagens enfrentam ao longo da fita. Mais do que isto: com o drama, a produção consegue emular uma realidade próxima ao que muitas pessoas vivem, com os constantes problemas que qualquer relacionamento pode ter; com a comédia, somos arrancados das reflexões dramáticas para dar risadas genuínas em situações carregadas de confusão, grosseria, escracho e, acima de tudo, inteligência. Sim, porque o maior mérito de Amor a Toda Prova é ser um filme INTELIGENTE.

A ideia parte de uma noite normal entre o casal Cal Weaver (Steve Carell) e Emily (Julianne Moore) que termina num pesadelo quando ela pede o divórcio e decide contar para ele que o traiu. Deprimido, Cal afoga suas mágoas todas as noites num bar local, onde conhece o bem apessoado e sedutor playboy Jacob Palmer (Ryan Gosling), um cara que sempre teve tudo o que quis e que fica com pena de Cal. Para ajudá-lo a reencontrar a masculinidade perdida, ele decide fazer uma transformação radical no novo solteiro e ensiná-lo como conquistar todas as mulheres que ele quiser, inclusive sua ex-esposa. Enquanto isso, o filho de 13 anos de Cal e Emily, Robbie (Jonah Bobo) persegue a garota dos seus sonhos, a babá Jessica (Analeigh Tipton), que, na verdade, é secretamente apaixonada pelo pai dele. Jacob, por sua vez, continua sua investida em todas as mulheres, mas, uma em especial, escapou ao seu charme, a estudante de direito Hannah (Emma Stone), uma jovem dedicada aos estudos e à carreira, mas que namora um verdadeiro imbecil.

Estes personagens são as peças de um jogo intrincado e apaixonante. O excelente elenco demonstra um entrosamento que faz a trama fluir naturalmente, sem que as situações, por mais absurdas que sejam, pareçam forçadas. Não só isso, a linguagem corporal deles consegue expressar sem palavras e de forma simples as entrelinhas de um roteiro que trabalha muitas sub-tramas simultaneamente. Outra sacada ótima é que o longa usa os clichês das comédias românticas a seu favor e brinca descaradamente com eles. Os responsáveis por esta qualidade são os diretores Glenn Ficarra e John Requa, dupla conhecida pelo subversivo Papai Noel às Avessas (2003) e pelo divertido O Golpista do Ano (2009). Aqui, eles se mostram maduros a cargo do ótimo roteiro de Dan Fogelman, que escreveu também as animações Carros (2006) e Enrolados (2010). Fogelman, aliás, merece um destaque adicional por criar uma trama composta por vários pontos-de-vista bem amarrados, sem qualquer ponta solta. Desafiadoramente contrário às tendências das comédias românticas que pipocam no cinema, o longa é atrevido e criativo. Seus personagens principais são extremamente convincentes em sua visão de amor: a amargura de Cal, a frustração de Emily, a insensibilidade de Jacob, a praticidade de Hannah, o otimismo de Robbie e a timidez de Jessica exploram os altos e baixos dos relacionamentos com charme e sagacidade. Tudo se encaixa perfeitamente e converge para a impressionante reviravolta do final, que vai deixar muita gente surpresa e extasiada.

Emma Stone

Os atores aparecem à vontade em seus papéis num esforço conjunto que permite a todos brilharem igualmente na tela. Steve Carell permanece na zona de conforto que já conhecemos por suas atuações em O Virgem de 40 Anos (2005) e Uma Noite Fora de Série (2010), o que não caracteriza um problema. Pelo contrário, a própria premissa do longa remete à estes filmes. Julianne Moore assume uma tarefa desafiadora com uma personagem que poderia facilmente despertar rejeição, mas que é crível e simpática em sua crise de meia-idade e, sobretudo, mostra ótima química com Steve Carell. Ryan Gosling é uma escolha acertada do elenco, com uma entrega e um tato para a comédia perfeitos, embora sua atuação seja majoritariamente sustentada pelos atores com quem divide as cenas. Emma Stone é EMMA STONE… linda, carismática, linda, apaixonante, linda, PERFEITA; ela aparece pouco em cena, mas, quando o faz, dá um charme especial para o filme (sim… eu sou fã dela, e coloquei a foto dela aí em cima só para admirá-la um pouco mais!). O maior destaque no elenco, entretanto, é o jovem Jonah Bobo; o garoto surge com uma segurança de dar inveja aos mais experientes e encarna bem o personagem mais maduro da trama (apesar dos 13 anos). É incrível ver como, num filme em que pessoas estão tentando se encontrar e são incapazes de fazê-lo, um adolescente, que deveria ser o mais perdido da história, é o mais sóbrio e decidido. Sua visão jovial lhe proporciona uma percepção simplista das coisas que, muitas vezes, escapa à vista dos adultos — é aquela velha máxima: “as coisas são simples, as pessoas é que complicam tudo”. Robbie sabe o quer, corre atrás e não pretende mudar só porque perdeu uma batalha ou porque lhe dizem para fazer isso. Como em Pequena Miss Sunshine (2006), as maiores lições da trama vêm de uma criança; aos mais velhos, cabe apenas prestar atenção e aprender. Seu objetivo amoroso, interpretada por Analeigh Tipton, expressa bem outro lado da adolescência: o desejo dos jovens de serem vistos como adultos.

No final, Amor a Toda Prova deixa claro que as pessoas podem não ser perfeitas e cometer erros, mas que também são capazes de aprender com eles. Não obstante, fala de amor verdadeiro como um ideal que todos almejam, mas sem parecer piegas, e mostra que vale a pena lutar por este sentimento. Mesmo o casamento, uma instituição falida nos tempos atuais, segundo dizem alguns, vale o esforço. Amor a Toda Prova não vale somente por sua boa história, mas também por proporcionar momentos de reflexão e emoção. Com todos estes elementos juntos, grande elenco e roteiro perspicaz, o filme põe a toda prova o amor e as comédias românticas, e garante que ambos ainda têm salvação.

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  • http://pachaurbano.com/ Pacha Urbano

    Este é o típico filme em que o trailer vende uma coisa e ele é outra completamente diferente (assim como “Mais Estranho Que A Ficção”). Gostei de todos os atores em cena, inclusive os coadjuvantes, e principalmente de Steve Carell que cada vez mais mostra seu talento para o dramédia (como em “Eu, Meu Irmão e Sua Namorada”). Não o vejo numa posição confortável neste filme, ao contrário, acho que ele foi bem longe no personagem e deram bastante espaço para que este se desenvolvesse sem precisar ser apelativo. Dei nota 10 para este filme antes mesmo dele acabar.
    E asseguro que esta é sua melhor resenha crítica, meu chapa.
    Parabéns!

    • http://www.nivelepico.com/ Alan Barcelos

      Cara, nem falei da zona de conforto negativamente… mas, porque, como você disse, ele está se especializando em dramédias. Eu achei todos os atores excepcionais. O filme é sensacional! Com 30 minutos de filmes, eu já estava apaixonado. :-)

      Obrigado pelo elogio!

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