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Lanterna Verde

Lanterna Verde

A DC não dá sorte no cinema. A cada novo filme que estreia torna-se maior a certeza de que o potencial da DC Comics está nas animações para vídeo, enquanto o território cinematográfico permanece nas mãos de sua maior rival, a Marvel Comics. Com exceção dos excelentes Batman Begins (2005) e Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008), as empreitadas da DC nas telonas não dão certo. O filme Lanterna Verde (Green Lantern, 2011) reforça ainda mais essa ideia, pois está muito aquém do que o mais criativo personagem da editora merece. O diretor Martin Campbell, que tem no currículo 007 Contra GoldenEye (1995), A Máscara do Zorro (1998) e 007: Cassino Royale (2006), não consegue garantir metade da diversão que seus filmes anteriores proporcionavam.

O longa já começa errado na escolha do argumento para o roteiro, que sofreu com inúmeras modificações de última hora e com o afastamento de Geoff Johns da produção — simplesmente o homem que revolucionou as histórias em quadrinhos do herói e o colocou entre os personagens mais queridos da atualidade. A trama, que é inspirada na conhecida saga Amanhecer Esmeralda (1989), acompanha a origem do maior de todos os Lanternas Verdes — Hal Jordan (Ryan Reynolds). Ele é um piloto de aviões audacioso, porém irresponsável e que vive tendo problemas com sua amiga de infância e também piloto, Carol Ferris (Blake Lively). A vida do piloto muda quando uma nave espacial cai na Terra e Hal é atraído até ela, onde ele encontra o Lanterna Abin Sur (Temuera Morrison) extremamente ferido. O alienígena entrega seu anel para Hal, que se torna um Lanterna Verde; porém, para assumir toda esta responsabilidade, ele terá que lidar com os outros membros da Tropa dos Lanternas Verdes, conhecer as leis instituídas pelos misteriosos Guardiões do planeta Oa e enfrentar a ameaça do terrível inimigo chamado Parallax (voz de Clancy Brown) e seu acólito terrestre, Dr. Hector Hammond (Peter Sarsgaard).

O erro que mais depõe contra o filme é justamente estes vilões supracitados. Parallax, que é uma entidade poderosa, destruidora e que representa toda a essência do medo no universo da DC, aparece como um mero trampolim para os acontecimentos da trama. Para complicar tudo, o vilão proporciona momentos que lembram (em efeitos visuais e narrativos) Final Fantasy: The Spirits Within (2001) — acredite, lembrar de uma bomba como The Spirits Within durante qualquer filme é desolador. Um ser como Parallax merecia ser explorado com mais cuidado e misticismo, não ser jogado de qualquer maneira no roteiro. Entretanto, a escolha do Dr. Hector Hammond para antagonista principal provou ser ainda pior. Peter Sarsgaard é um bom ator e se esforça no papel apesar dos problemas do roteiro e dos diálogos rasos, mas, no fim, torna-se apenas um vilão caricato, vazio e desnecessário. A cena em que ele, do nada, se deita ao lado de Hal Jordan enquanto o herói está caído é vergonhosa. Desde o começo o foco devia ter sido no inimigo verdadeiro de Hal, Sinestro. Mark Strong convence como Sinestro, demonstrando todo o orgulho e selvageria que causaram sua queda e tornaram-no um dos maiores inimigos dos Lanternas Verdes. O roteiro, no entanto, mostra-se um empecilho mais uma vez. Numa das cenas mais risíveis, Sinestro simplesmente decide que é interessante construir um anel amarelo porque o inimigo dos Lanternas Verdes é poderoso e precisa ser combatido com sua própria arma. Os Guardiões de Oa, sempre tão sisudos e irredutíveis em suas opiniões, simplesmente aceitam a ideia, isto considerando que alguns segundos antes, eles deixam claro que a energia amarela é perigosa e incontrolável. Além disso, em nenhum momento da história, é apresentada uma razão plausível para Sinestro tornar-se o vilão que é nos quadrinhos.

Do lado dos mocinhos, há as participações ínfimas de Kilowog (voz de Michael Clarke Duncan) e Tomar-Re (voz de Geoffrey Rush). Os dois são personagens fortes da Tropa dos Lanternas Verdes, mas recebem um tratamento meramente alegórico e não duram mais do que dez minutos em cena. Do lado dos protagonistas, por mais incrível que possa parecer, Ryan Reynolds não é uma escolha ruim, nem sua companheira Blake Lively. Todavia, a condução dos personagens e sua relação é que atrapalha a atuação deles. Reynolds é um ator com potencial, vide suas boas performances em Horror em Amitvylle (2005) e Enterrado Vivo (2010), porém, todos (cineastas e espectadores) insistem em olhar para ele somente como o cara engraçadinho e não levam em consideração o que ele realmente poderia fazer pelo personagem. No início da história do herói nos quadrinhos, Hal Jordan era arrogante e impulsivo, mas no final, o roteiro força demais nas piadas e transformam o personagem em nada mais do que um piloto mauricinho saído de Top Gun (1986). As tentativas de humor causam risos… de desgosto. Já Lively está linda e apresenta algum carisma, mas sua Carol Ferris é extremamente subaproveitada. O enlace romântico entre Hal e Carol acaba sendo prejudicado, pois não consegue ter o charme de Superman e Lois Lane e nem a tensão erótica de Batman e Mulher-Gato.

O objetivo original do filme deveria ser fundamentar uma nova saga heróica no cinema, mas fica apenas na premissa ingênua de construir uma historinha de origem para servir de ponte para um segundo filme (onde o verdadeiro potencial do herói seria explorado). Guardar os bons argumentos para uma possível continuação é uma ideia ruim e que apenas resulta numa embromação cujo resultado serve apenas para fazer o espectador de bobo. Mesmo tentando passar lições valorosas sobre coragem e determinação para superar obstáculos, Lanterna Verde não consegue sequer emular a discussão social de X-Men: Primeira Classe (2011) ou a escuridão psicológica de Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008) ou a compleição mitológica de Thor (2011). Nem os efeitos especiais salvam. Apesar de alguns momentos grandiosos, parecem ainda mais ineficientes do que os efeitos usados em Besouro Verde (2011) — seria uma maldição da cor verde no título?! — e não fazem jus ao dinheiro gasto no longa. Para piorar, há ainda uma repetição de uma cena em que Sinestro conclama seus companheiros Lanternas; a cena aparece no meio e no final do filme e é um recurso normalmente utilizado para reduzir os custos da produção, mas que não cabe a um filme com o orçamento e o porte de Lanterna Verde.

O longa termina como um produto descartável perante as adaptações de quadrinhos que vem sendo produzidas nos cinemas. Depois de vários passos bem dados pelos heróis nas telonas, uma regressão. O roteiro se estabelece como o grande demérito da produção… e com um roteiro sem rumo, identidade ou profundidade, não há diretor, atores ou força de vontade que consigam manter um filme nos trilhos a ponto de torná-lo bom. Se você quer ver uma boa história do Lanterna Verde, pode assistir à animação Lanterna Verde: O Primeiro Voo (2009), cuja crítica você pode ler aqui — o desenho também é inspirado no quadrinho Amanhecer Esmeralda e dá uma lição compacta e certeira sobre o que o filme do Lanterna Verde poderia ter sido. Parece que a DC ainda está longe de um dia mais claro no cinema.

PS: A quem possa interessar, existe uma cena adicional no meio dos créditos que deixa um gancho para um possível segundo filme.

Nível Ínfimo

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  • Claudio

    Bom não conheço a história do lanterna verde, agora a cena dele deitado com o Doctor Hector é ridícula e o anel amarelo?? Só se for no segundo filme.

    Realmente conseguem estragar franquias de games e quadrinhos aos montes, é divertido em algum momento, mas é fraco no todo.

    • http://www.nivelepico.com/ Alan Barcelos

      Lanterna Verde é meu herói preferido da DC, então imagina a decepção que foi para mim.

      Talvez, melhore no segundo, agora que o Sinestro vai ser o vilão verdadeiro… ou talvez, piore ainda mais. Vamos ver.

      Abs.

  • alexandre machado maia

    ja tem data para o segundo filme?

    • http://www.nivelepico.com/ Alan Barcelos

      Ainda não há uma data exata.

      O segundo filme está previsto para 2013. :-)

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