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Super 8

Super 8

Super 8 (2011) é uma grande homenagem aos clássicos filmes de fantasia e ficção-científica sobre crianças e seres estranhos (sejam eles de outro mundo ou não). Acima de tudo, é uma homenagem ao cinema do mestre Steven Spielberg, que participa da produção. Todavia, o longa também ostenta uma identidade própria reforçada pelo apelo jovial de J.J. Abrams, o homem que revolucionou a TV com o seriado Lost (2004) e também já foi responsável por ótimos filmes como Missão Impossível 3 (2006) e a reformulação de Star Trek (2009). Tudo no filme exulta Spielberg, e Abrams desfila pela tela um festival de referências à carreira do cineasta: Tubarão (1975), Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977), Indiana Jones e Os Caçadores da Arca Perdida (1981), ET – O Extraterrestre (1982), Os Goonies (1985), Jurassic Park – Parque dos Dinossauros (1993) etc. As fontes são tantas que as citações neste texto também aparecem aos montes — não tinha como evitar.

A história é conduzida primariamente por um grupo de crianças que tentam de qualquer maneira gravar um curta-metragem para um festival amador de cinema — Super 8 é o nome da película que eles usam nas filmagens e também o nome do festival. Em sua busca por “qualidade de produção”, eles acabam sendo sugados para uma perigosa trama que tem início com um terrível acidente de trem. Lembra a ideia básica de Os Goonies. Joe Lamb (Joel Courtney) é o assistente de maquiagem e efeitos especiais do curta, que é dirigido pelo seu amigo quase obcecado Charles (Riley Griffiths). Os dois e outros três amigos juntam-se na empreitada de produzir um filme sobre um detetive contra zumbis (eles tinham que começar de algum lugar!) e decidem filmar próximo a uma estação velha de trem. Eles precisavam de um par romântico para seu detetive e convidam a problemática Alice (Elle Fanning) para participar. Porém, durante as gravações, um trem militar de passagem pelo local descarrila e provoca um acidente de proporções épicas que coloca as crianças no meio de uma sequência fantástica de efeitos especiais. A cena é de encher os olhos e o efeito de reflexão da luz na lente da câmera (chamado flare) que aparece durante o desastre é claramente inspirado em Contatos Imediatos de Terceiro Grau. O acidente traz os militares para a cidade, que começa a sofrer com misteriosos desaparecimentos, fuga de cachorros e queda de energia. Com os adultos perdidos em disputas burocráticas, cabe às crianças a tarefa de descobrirem o que está acontecendo e encontrar a carga aparentemente viva que estava no trem e fugiu durante a catástrofe.

O enredo agradável é bem amarrado, com reviravoltas e soluções surgindo nos momentos apropriados. Em certos momentos, o clima pesa um pouco, adicionando um toque mais sombrio e adulto, no melhor estilo Poltergeist – O Fenômeno (1982). O longa parece dirigido por Steven Spielberg, mas tem a marca registrada de J.J. Abrams: uma história ágil e inteligente repleta de personagens extremamente tridimensionais. É incrível a capacidade do diretor para construir personalidades e relações. As crianças, em especial, dão um show de carisma e simpatia na tela e o mais interessante é que, apesar de toda a tensão dos acontecimentos, elas continuam sendo crianças — agitadas, espertas, corajosas (ou quase) e falastronas. Não só isso, a união entre elas é tão verossímil que não sobra espaço para duvidar de que a amizade entre eles é legítima. O elenco traz atores mirins atuando como gente grande. Joel Courtney suporta bem a responsabilidade de ser um protagonista cuja história possui a maior carga dramática. Riley Griffiths é o oposto e se sai bem porque diverte; seu personagem é muito engraçado e tem ótimas tiradas. A linda Elle Fanning, irmã mais nova de Dakota Fanning, apresenta um desempenho maravilhoso e, como vem mostrando em outras produções, é portadora de uma expressividade apaixonante. O roteiro ainda toca levemente em temas como a relação entre pais e filhos e a superação de uma perda. O filme mostra o pai como uma figura falível, que é presente e ausente ao mesmo tempo, pois não se mostra tão eficiente em suas obrigações paternas como é em suas obrigações patriarcais. Um problema que se agrava ainda mais com a ausência de uma figura materna. Porém, também abraça a ideia de que na vida coisas ruins acontecem e não podemos nos deixar abater por causa das intempéries. Às vezes, é difícil nos libertarmos de tristezas do passado, mas a vida continua e precisamos seguir adiante (aliás, isto me lembra Lost).

Os problemas do filme só começam a aparecer no terceiro ato, quando o ritmo fica mais lento se comparado ao começo arrebatador. A tentativa de estabelecer urgência para a trama afeta um pouco a atmosfera estabelecida no início. Também existem alguns momentos improváveis e que exigem alguma suspensão de descrença, mas partindo do princípio que esta é uma aventura sobre crianças com a imaginação fervilhando, não é difícil se deixar levar. São falhas simplórias, que não atrapalham o conjunto.

De fato, aventura é a palavra que define Super 8. O tom aventuresco trabalha com os melhores efeitos especiais e os atores em sua melhor forma para criar uma saga digna dos tempos de Spielberg com seu ET – O Extraterrestre. A emoção surge na medida certa e nos momentos oportunos, sem exageros melosos — e ganham ainda mais força com a trilha sonora de Michael Giacchino (que também trabalhou em Lost). O final, que é outra citação a Contatos Imediatos de Terceiro Grau, atinge o ápice da carga emocional contida na história. Aqui, um adendo: o desfecho poderia ter sido um pouco menos dramático, embora tenha as características típicas do jeito Spielberg de fazer cinema. Não obstante, há também bastante perigo e momentos de suspense, em geral, provocados pelo misterioso alienígena. O monstro nunca é retratado em sua plenitude, mas sempre com movimentos rápidos de câmera e sombras que atenuam o vislumbre de sua aparência. A exposição é feita de modo a manter o misticismo acerca da criatura, diferente do que acontece, por exemplo, em Cloverfield (2008). Na verdade, o alienígena mescla referências claras a Tubarão e ao tiranossauro de Jurassic Park e isto se reflete na forma tensa como ele é apresentado ao público.

Tudo em Super 8 é referência. O próprio Abrams é um cara conhecido pelas inúmeras referências que usa em suas produções. As ideias foram meticulosamente criadas em cima de fontes de inspiração clássicas dos filmes das décadas passadas: a vida no subúrbio, com famílias que habitam longas extensões de vales ou planícies; o cenário situado em 1979; o medo dos russos, que deu origem às milhares histórias sobre alienígenas da época; um grupo de crianças cujos segredos as diferenciam dos adultos e cujas conversas são sempre cheias de falas rápidas e sobrepostas; o elemento misterioso em evidência; a criatura estranha que nunca é realmente revelada; entre outras. J.J. Abrams consegue misturar toda esta miscelânea com habilidade numa história agradável e divertida. O resultado coloca Super 8 entre os filmes mais legais do ano. Além disso, se você cresceu nos anos 80 e 90, certamente vai se deslumbrar com a nostalgia de descobrir no longa as conexões com os filmes da sua infância.

PS: Vale a pena acompanhar os créditos de Super 8 para assistir à versão final do curta gravado pelas crianças durante o filme. É muito engraçado.

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  • http://cinelogin.wordpress.com Renato

    Que beleza!! Que bom que o filme está recebendo boas críticas por aqui.
    Tentarei ver em Imax.

    Você viu em alguma pré-estreia?

    • http://www.nivelepico.com/ Alan Barcelos

      Desculpe a demora… foi um fim de semana corrido por causa da Fantasticon.

      O filme é realmente muito bom. Eu vi em IMAX e aconselho… tudo fica ainda mais impressionante.

      Eu assisti numa sessão para a imprensa. :-)

      • Renato Rocha (@rocha_renato)

        Eu ia ver em Imax, mas o Dia dos Pais ferrou minha programação…heheheh.
        Imprensa? Como se consegue essas mamatas? :P

        • http://www.nivelepico.com/ Alan Barcelos

          Eu sou jornalista e trabalho como crítico de cinema. Por isso, quando tem sessão para imprensa, geralmente recebo convite. :-)

  • Renato Rocha (@rocha_renato)

    Recebe convite de quem? Como faz para receber isso?

    • http://www.nivelepico.com/ Alan Barcelos

      As assessorias de imprensa das produtoras que estão distribuindo o filme é que enviam para os jornalistas dos veículos credenciados.

      Eu recebo os convites porque o editor do site para o qual eu escrevo as críticas redireciona para mim quando é para fazer a crítica de algum filme ou quando enviam para a rádio onde eu também trabalho. :-)

  • http://cinelogin.wordpress.com Renato

    Aaaahh… saquei.
    Então a parada é se credenciar junto às produtoras?

    • http://www.nivelepico.com/ Alan Barcelos

      Sim…

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