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A Árvore da Vida

A Árvore da Vida

A Árvore da Vida (The Tree of Life, 2011) é uma ode sobre pais e filhos, vida e morte. Porém, tão simples palavras são incapazes de descrever a contemplação que a produção de Terrence Malick pode despertar. Ganhador da Palma de Ouro deste ano no Festival de Cannes, a expectativa sobre o longa era grande e A Árvore da Vida provou ser uma impressionante experiência audiovisual. Não obstante, revela-se uma jornada espiritual e filosófica acerca de questões que assolam o âmago do ser humano desde o primórdio dos tempos; a maior delas: Deus. Malick não criou um filme convencional, mas um discurso sobre a existência que utiliza o poder do som e da imagem para passar sua mensagem, de uma forma que lembra muito o trabalho realizado por Stanley Kubrick em 2001, Um Odisseia no Espaço (1968).

O Senhor O’Brien (Brad Pitt) é um pai que educa seus filhos com excessiva rigidez e, constantemente, bate de frente com a educação mais amena provida pela esposa (a belíssima Jessica Chastain). Ela desaprova este postura porque é uma pessoa mais carinhosa, que acredita no afeto para com os filhos e no amor ao próximo, enquanto O’Brien acredita que, na vida, os fortes triunfam e os íntegros demais perecem. Duas pessoas diferentes que conduzem os caminhos de três filhos até o dia em que um deles morre e eles são obrigados a rever todos os seus conceitos. Entretanto, o filho mais velho (Hunter McCracken) já está marcado pela ambiguidade de sua criação e a influência do pai e da mãe que brigam em seu interior pesam sobre sua índole, que oscila entre a raiva e a integridade. A trama acompanha as ramificações que forma a árvore que compõe a origem desta família entrecortada por momentos de pura reflexão sobre a origem do mundo e da existência dos seres, desde os organismos primitivos até os humanos.

Apesar do forte teor poético, Terrence Malick mantém uma tênue ligação entre todos os signos de sua obra, pois sempre usa a evolução do mundo e a influência atribuída a Deus na criação para aludir o estilo de vida e os conflitos (físicos e espirituais) da família. Num momento, ele lança a pergunta sobre o porquê de Deus tratar seus filhos com tanto descaso, para depois exaltar a agressividade de O’Brien para com seu filho. Do outro lado, a mãe acalenta os filhos e aquieta seus corações inspirada pela bondade que advém de suas crenças. Como ela mesma diz no começo da narrativa: “Existem duas maneiras de se viver. A maneira da natureza, e a maneira da graça”. É a relação entre pais e filhos, ora tempestiva ora compassiva. E não seria este também o significado de acreditar em algo… seja na superioridade de uma entidade sobrenatural seja na superioridade de uma figura paterna?! Qual seria realmente a diferença entre ambas?! Tudo é apresentado de forma bastante conceitual e imagética, com linhas de diálogo simples que fazem as vezes de narração. Além disso, o drama é adornado pela divina comédia da existência humana, na qual os humanos, mesmo depois de eras, ainda não foram capazes de compreender o real valor da vida e vivem apenas para sobreviver um dia após o outro. Neste contexto, somente a morte é capaz de abalar as estruturas vigentes, pois o ser humano não está pronto para as mudanças que a morte traz e, ao mesmo tempo, só é capaz de perceber que as mudanças são essenciais quando o sofrimento pela perda de um ente querido se abate sobre suas almas e lembra-lhes o quão finita é a vida.

A obra-prima encontra completude em suas nuances técnicas. A supracitada beleza visual é de um apuro estético que dá plasticidade as cenas, especialmente nas cenas referentes à criação. É impossível não pensar que uma energia vibrante e renovadora atua em todas as coisas, desde a erupção de um vulcão até o arrebentar de uma onda, independente da crença na existência ou não de uma força superior. É apenas a pura dádiva da vida. As imagens são lindas e tornam ainda mais tangível os enigmas da existência. O som enaltece o teor reflexivo, com a trilha sonora de Alexandre Desplat trabalhando em uníssono com as imagens e a serviço dos ideais do filme. A edição alterna entre momentos de ternura e de tensão da família, imprimindo expressividade aos personagens e o ritmo se mantém lento, num estilo que lembra o modo europeu de fazer cinema dramático, até que breves rompantes de dinamismo tiram o público da reflexão. A lentidão, no entanto, torna-se cansativa em alguns momentos. A primeira metade de filme é quase parada e a trama só engrena de verdade no segundo ato, quando os conflitos familiares ganham a tela.

Por fim, a última parcela desta composição é o elenco. Brad Pitt e Sean Penn, que já possuem um gosto pessoal por filmes autorais, mostram a qualidade habitual de interpretação. Pitt à medida que ganha rugas no rosto também adquire rugas de experiência. Ele se supera em cada papel e surpreende por mostrar sua versatilidade como o ríspido Senhor O’Brien. Já Penn tem uma participação menor e bem mais simbólica. Suas cenas são consequência dos acontecimentos que vivenciou com a família durante sua infância. Os destaques do longa, entretanto, ficam com Hunter McCracken e Jessica Chastain. McCracken interpreta o filho mais velho Jack, que se sente preterido em relação ao irmão mais novo, que parece mais talentoso em tudo que faz e mais respeitado por isto. Jack é a vítima dos maus-tratos do pai e, por isso, através de seus olhos, vemos um mundo agressivo, onde as cobranças são incessantes e o carinho para com os outros é sempre uma obrigação. Ele ama e odeia sua família e sua mente infantil guerreia por causa disto. Quando a maturidade vem, resta-lhe apenas a visão opressora do mundo e a solidão mesmo quando acompanhado de uma linda mulher. O ator mirim consegue expressar este eterno conflito com habilidade de gente grande. Já Chastain é a representação máxima da beleza e do carisma da produção — sua interpretação é sóbria e imponente. Sua personagem é o epíteto da árvore da vida, é o caule que se mantém firme e plácido ante os galhos inquietos que se amotinam uns contra os outros a todo instante. Ela é como uma conexão para todas as coisas que permeiam a história: pais e filhos, matéria e espírito, vida e morte, ingenuidade e malícia, fé e descrença. Ela é a contemplação encarnada.

A Árvore da Vida confecciona imagens magníficas que captam a vida como pouco se vê no cinema, uma qualidade visual que, aliás, lembra um pouco o recente Melancolia (2011). Porém, enquanto Lars von Trier ilustra a depressão e martela que o espírito humano está fadado ao fracasso, Terrence Malick abraça a compaixão e a esperança, mostrando que há sim uma chance de salvação e, sobretudo, redenção. A Árvore da Vida, como uma ópera regida e orquestrada com os mais suaves e precisos toques, é uma experiência mágica e comovente.

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