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Cidade dos Ossos

Cidade dos Ossos

Cassandra Clare não é uma escritora das mais sensacionais e Cidade dos Ossos não conta a história mais inovadora do mundo, mas o livro consegue, do seu jeito, fisgar o leitor e colocá-lo no mundo macabro e fascinante dos Caçadores de Sombras. Cidade dos Ossos é, antes de tudo, direcionado para o público jovem e escrito como tal, mas não deixe que seu preconceito o impeça de conhecê-lo ou vai perder a chance de ler uma história agradável e mais interessante do que muito livro do gênero que existe por aí. Aqui no Brasil, o lançamento deve-se à Galera Record, o selo de literatura juvenil da Editora Record.

Os Instrumentos Mortais, vol. 1: Cidade dos Ossos (The Mortal Instruments, vol. 1: City of Bones, 2007) flerta basicamente com um gênero que vem ganhando força na literatura atual — a fantasia urbana, no qual criaturas fantásticas habitam o mundo escondidas nas sombras. Na trama, a jovem Clary Fray (abreviação de Clarissa) é uma garota normal que vive em um mundo normal… até que um dia, numa boate, ela vê um estranho garoto de cabelo azul ser morto por um grupo de três adolescentes mais estranhos ainda portando armas sobrenaturais. Neste momento, as coisas mudam, pois Clary, como uma mundana, não devia ser capaz de ver nada daquilo. Mais tarde, a menina descobre que os três são Caçadores de Sombras (também chamados de nephilim), seres especiais criados a partir da mistura de sangue humano e angelical e cuja missão é garantir a ordem entre o mundo mundano e sobrenatural, mesmo que para isto seja necessário exterminar demônios, vampiros e outras criaturas que ameacem este equilíbrio. Clary mergulha definitivamente nesta realidade nova e terrível quando sua mãe desaparece e ela própria é atacada por um demônio. Não obstante, a garota supostamente mundana começa a descobrir que possui o dom da Visão. Sem opção Clary se une aos Caçadores Jace, Alec e Isabelle em busca de respostas, mas acaba enredada nas intrigas de uma história que remete até o passado dos Caçadores de Sombras e de um inimigo que há muito se acreditava estar morto. Para complicar, ela começa a se aproximar de Jace, mas a relação entre os dois é conturbada por causa do temperamento do garoto, que apesar da aparência angelical é tão frio e calculista quanto um demônio. E, no meio disto tudo, ela ainda precisa lidar com o amigo mundano Simon, que sem querer é sugado para os perigos do Mundo de Sombras junto com ela.

Cassandra cria um universo realmente atrativo, que aguça a curiosidade por conhecê-lo melhor. A história de Clary e dos Caçadores de Sombras é bastante simples e recheada de um sem número de clichês comuns ao gênero. Todavia, isto não é necessariamente um problema. A autora consegue se inspirar na cultura pop com eficiência, apropriando-se de referências que lembram: livros como Diários do Vampiro (1991) e Harry Potter (1997); séries como Buffy: A Caça-Vampiros (1997) e Supernatural (2005); filmes como Os Garotos Perdidos (1987), Jovens Bruxas (1996) e até mesmo Guerra nas Estrelas (1977); animes como Yu Yu Hakusho (1992), Inuyasha (2000) e Bleach (2004); entre outras. Aliás, as referências às animações japonesas são as mais gritantes; pela forma como Cassandra direciona seu universo e conta sua história parece que estamos acompanhando o desenrolar de um anime com a adição de elementos comuns à literatura juvenil atual — enredo sobrenatural, menina protagonista, garoto misterioso, triângulo amoroso etc. O próprio fato de a autora citar animes ao longo da narrativa comprova minha teoria. A condução da trama, como um bom desenho japonês, insere os personagens numa aventura com ação, suspense, mistérios a serem revelados, personagens carismáticos e um final dramático (normalmente, que causa mais tristeza do que contentamento).

Os personagens são o grande acerto do livro, trabalhados com personalidades bastante específicas que dão um charme especial a cada um deles. O melhor é, sem dúvida, Jace Wayland. Diferente da maioria dos protagonistas das histórias juvenis recentes, Jace é arrogante, convencido, sarcástico e não sofre de amor incondicional pela mocinha. Todos os seus diálogos são carregados de cinismo e suas respostas sempre sinceras são dolorosas como só a verdade pode ser. O personagem é intrigante e puxa a atenção do leitor, daquele tipo que várias vezes nos faz pensar: “porra… ele é foda pra caralho!”. Cassandra conseguiu criar um personagem muito bom, que não é forte somente de personalidade, mas também de presença e de habilidades. O problema é o modo como ele é conduzido no ato final. Aquele personagem fodão que você aprende a admirar é transformado num idiota fraco e facilmente manipulável. O deslize é temporário, mas dura o suficiente para manchar um pouco a aura que tinha sido construída ao longo da toda a história. De qualquer jeito, acredito que o personagem ainda será bastante desenvolvido e ainda tem muito para crescer — só espero que seja para melhor.

Então, temos os outros personagens (alguns mais importantes do que outros). Clary também tem suas características próprias, a começar pelo fato de não ser uma menininha frágil e bobona; pelo contrário, é corajosa e impulsiva, o que faz com que se envolva em alguma situação perigosa a cada vinte páginas. Além disso, ela demonstra grande presença de espírito para lidar com as reviravoltas e revelações constantes sobre sua própria existência, detalhes que evitam que a personagem se torne uma chata insuportável. Este cargo fica para Alec e Isabelle, dois personagens que são MUITO chatos — eles também têm traços únicos de personalidade, mas não apresentam grande relevância para a trama. Quem definitivamente acrescenta alguma coisa é o amigo mundano sempre presente de Clary, Simon. Ele funciona primariamente como alívio cômico e é um nerd assumido, responsável pela maioria das citações a alguma das referências da autora. Porém, Simon aos poucos cresce na história e, apesar de mundano, se mostra um sujeito sagaz, leal e heróico — o personagem é tão bom que às vezes rouba a cena do verdadeiro protagonista.

Apesar dos acertos, Cidade dos Ossos também tem muitos problemas. A forma como Cassandra Clare escreve é um deles. A escritora é boa, mas poderia ser melhor. Ela faz muitas variações entre os pontos de vista dos personagens e os alterna muito caoticamente, de modo que o foco muda sem pausas e causa confusão na narrativa. No começo do livro isto é mais evidente e só melhora um pouco a estranheza com o andamento da história. Os diálogos são leves e inteligentes, mas às vezes sofrem com exclamações bobas e inúteis. A mais clássica é o “Oh, meu deus!” que Jace às vezes solta quando se surpreende ou se assusta; acompanhem o raciocínio: se Jace é um cara indiferente, que possui diálogos ácidos e deixa claro que não acredita em Deus, POR QUE DIABOS ele soltaria uma exclamação desta forma?! Esta é apenas uma das falhas que refletem a inexperiência da autora na construção das falas, pois ela simplesmente escreve como ela falaria e não leva em conta as características do personagem que está falando. E o problema não é só com Jace, pois acontece até com o antagonista Valentim — e, porra, é mais ridículo ainda considerando que este é o grande vilão maligno da história! Outra questão a se considerar é com relação à ação. Uma história embasada nesta premissa de confronto entre seres sobrenaturais exigia um pouco mais de ação. As cenas de ação existem e são interessantes, mas são poucas e fazem falta em determinadas cenas que pediam um pouco mais de dinamismo.

Cidade dos Ossos, como eu disse antes, não é uma história que vai revolucionar o mundo, mas vai garantir algumas boas horas de leitura despretensiosa e descontraída. O final ainda traz uma reviravolta realmente surpreendente — que, aliás, um amigo já usou com um personagem meu numa aventura de RPG e me deixou para lá de furioso! A virada com certeza vai despertar um sentimento misto de satisfação (por você ter sido pego de surpresa) e indignação (por você não acreditar que a autora fez aquilo). Por fim, o livro deixa uma ansiedade angustiante pelo que virá a seguir, pois quando o circo pega fogo, a trama é bruscamente interrompida para continuar somente no segundo livro: Cidade das Cinzas (2008). Eu garanto que vou continuar para ver aonde esta saga pode chegar. O Mundo de Sombras ainda tem muito a ser desvendado!

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  • http://serialreader.net Tita Mirra

    Oi Alan! Precisava mesmo comentar na sua resenha, afinal me sinto responsável por vc ter lido esse livro… rs

    Concordo com quase tudo o q disse… Mas talvez por eu ter lido os 3 primeiros livros de uma só vez, eu não tenha percebido seus pontos fracos. No meu caso, eu senti como se fosse um só plotline, um só arco dos personagens, e me pareceu bem mais resolvido.

    Quanto a tal expressão q Jace usa… Tem certeza q não é Pelo Anjo (que no original, em inglês, é By The Angel!)? Isso é um jargão usado pelos Shadowhunters e rende alguns diálogos divertidos nos próximos livros :P

    Eu tb não curto muito a Isabelle, mas o Alec melhora muito nos próximos livros. E eu adoro o Simon, mas vc sabe q o Jace é msm o meu favorito :P

    Não posso comentar mais sem soltar algum spoiler, então lê logo os outros 2 livros e me conta!

    Bjs e parabéns pela resenha :)

  • http://www.nivelepico.com/ Alan Barcelos

    Obrigado!

    Pois é… provavelmente os pontos fracos melhorem nas resenhas dos próximos livros. :-P

    Sim, existe a expressão “Pelo Anjo” e eles falam de vez em quando. Eu considero a “Pelo Anjo” ótima, principalmente porque tem tudo a ver com os caçadores. Mas, a expressão “Oh, meu deus” ou “Por Deus” também rola… acontece poucas vezes, mas acontece. Eu usei a expressão como um exemplo, porque às vezes os diálogos são muito fracos.

    Eu acredito que vai melhorar nos próximos livros. Eu já estou com Cidade das Cinzas e assim que puder, vou lê-lo. :-)

  • http://serialreader.net Tita Mirra

    Pois é… vou até checar no original em inglês, pq isso pode ter acontecido na tradução (e faz toda a diferença, pq Pelo Anjo é bem mais maneiro…)

    Aliás, eu lembro q algumas coisas bem sacadas do texto original perderam um pouco a “força” quando foram traduzidas… Eu sei q isso faz parte mas não deixa de ser chato, né?

    Depois me diga o q achou do segundo livro :)

    • http://www.nivelepico.com/ Alan Barcelos

      Este lance do “Oh, meu deus!” pode até ser uma tradução literal do “Oh, my god!”… que é uma expressão muito comum entre os americanos (a Janda que me atentou para isso).

      Mas, de qualquer jeito, é algo que cabe na linguagem americana e, na tradução, deveria ter sido adaptada. Para um personagem como o Jace um palavrão soaria bem, mas, eu sei, é um livro juvenil e pode não ser adequado. Porém, neste caso, acho que uma exclamação mais neutra seria mais interessante. Por exemplo, ao invés de soltar um “Oh, meu deus!” e poderia dizer “Maldição!”. Soaria melhor para ele.

      No geral, eu acho os diálogos do livro bem construídos, mas às vezes rolam alguns deslizes nas falas.

      Direi sim! :-)

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