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Melancolia

Melancolia

Lars von Trier é um cineasta polêmico, mas com uma qualidade artística inegável. Melancolia (Melancholia, 2011) é a prova da capacidade do diretor de parir uma obra-prima. Conhecido pelos bem-sucedidos Dogville (2003) e Anticristo (2009), o diretor, que parece sempre usar seus filmes como terapias antidepressivas, apresenta o que pode ser definido como um ensaio sobre a decadência da alma humana e sobre como as escolhas erradas podem direcionar o caminho de uma pessoa para o mais fundo dos poços. Melancolia não é tão impactante como os longas que o precederam, porém em sua sutileza cruel consegue ser extremamente artístico.

Nada no filme consegue igualar sua maravilhosa sequência de abertura, que apresenta um esplendor visual digno de ficção-científica sob uma estética que lembra a de um videoclipe. No prólogo, o diretor deixa claro aonde quer chegar com sua história e que, independente da espera por reviravoltas ou mudanças de rumo, não há salvação — o fracasso é o fado inevitável. Mais impressionante é que o início é um grandioso SPOILER que traz um guia para o trágico acontecimento que assombra a trama até o seu final e, a despeito de contar tudo o que virá a seguir, nos faz querer acompanhar o desenrolar daqueles fatos com todos os detalhes a que temos direito. O tom desolador assemelha-se à abertura de Anticristo, mas elaborado numa escala notoriamente mais épica. Não obstante (e correndo o risco de ser redundante), deixa a certeza melancólica de que não haverá salvação, embora talvez seja possível vislumbrar uma ínfima redenção. A história, então, é contada em duas partes, sob os pontos de vista das irmãs Justine e Claire.

O primeiro arco mostra o casamento de Justine (Kirsten Dunst), uma publicitária respeitada, e Michael (Alexander Skarsgard… sim, o Eric de True Blood), o filho de seu pérfido chefe (Stellan Skarsgard). O casório é organizado por sua irmã Claire (Charlotte Gainsbourg) e financiado pelo marido dela John (Kiefer Sutherland… sim, o Jack Bauer). A festa acontece na luxuosa mansão onde moram irmã e cunhado, onde também está o restante da família. Apesar de começar animada e promissora, logo, a comemoração dá lugar a um ambiente sufocante cujo estopim é a opinião pessimista da mãe da noiva, Gaby (Charlotte Rampling). O poder de um simples “aproveite enquanto durar” sombriamente proferido revela rapidamente a fragilidade da personagem, que comprova o propósito fatalista do diretor em mostrar que, por mais belas e felizes que sejam as coisas, tudo tem um fim. Em certo ponto, a indiferença de Justine atinge um grau tão elevado que ela torna-se uma rebelde ensandecida, que desafia sem dó as normas sociais e rejeita as tradições e preceitos de todos ao seu redor. Não sou fã do trabalho de Kirsten Dunst, mas, a atriz mostra-se uma grata surpresa. Sua interpretação é visceral e atordoante, adornada por uma sucessão de cenas nas quais a fotografia e a direção de arte são magnificamente trabalhadas para evidenciar o caráter maníaco-depressivo da personagem, extraindo, assim, uma certa beleza das circunstâncias. O conjunto de fatores acaba por fazer de Kirsten Dunst o ponto mais forte de Melancolia. E as reações de Justine são apenas um passo para o inevitável. Então, a primeira parte termina num cataclismo social que prepara o terreno para o desastre físico vindouro.

Justine

Na segunda parte, o filme toma ares mais evidentes de ficção-científica e apresenta a angústia por outro ângulo. Enquanto Justine lidava com o terror da decadência de sua vida pessoal, sua irmã Claire está mais preocupada com a decadência de sua existência. O planeta azul Melancolia (o simbolismo em toda a sua essência) está cada vez mais próximo da Terra e vai acabar com tudo; e o medo de Claire é o sentimento mais básico que pulula da mente humana — o fim do mundo. Neste arco, Justine atingiu o fundo mais lúgubre do poço e agora é sustentada pela família da irmã, que vive numa situação de visível desconforto com isto. O diretor, que tem histórico de depressão, mostra nesta parte o quão desolador um caso grave desta doença pode ser para sua vítima e para aqueles que a cercam. Além disso, Claire vive aterrorizada pela ideia da destruição e luta para acreditar nas previsões do marido John, que é um astrônomo, de que nada vai acontecer. Do outro lado, no entanto, ela ouve apreensiva às afirmações indiferentes de Justine acerca do fim, que parece já ter aceitado seu destino. O mais perturbador é a calma com que a trama transcorre ante a destruição iminente. Em uma das sequências, o planeta absorve uma parte da atmosfera da Terra e força seus habitantes a hiperventilarem numa alusão clara ao que ocorre em um ataque de pânico ou ansiedade e, acredite, a agonia do momento trava também a respiração de quem está assistindo. Todavia, Melancolia não pretende ser tão chocante como Anticristo; aqui, Lars von Trier não desnuda o físico, mas a psique. O longa não é raivoso, mas exulta fúria fria.

Melancolia é extremamente poético, carregado por uma sensibilidade tocante e produzido para atingir escalas íntimas da alma. A parte técnica é trabalhada com esmero, com fotografia e direção belíssimas e capazes de emular todos os patamares da decadência progressiva que acompanha a depressão. Além da abertura impressionante e do final arrasador, o mérito do filme vem principalmente das performances excepcionais de cada parte dos atores, que contribuem para o estabelecimento do clima pesado de abandono, desespero e desesperança. O planeta azul assume um lado um pouco mais otimista ao representar a descoberta e às mudanças (ainda que drásticas) que uma novidade é capaz de promover. As duas irmãs expressam formas de agir ao caos proporcionado pelas descobertas: o medo absoluto (Claire) e a veneração espiritual (Justine). Não obstante, as duas irmãs ainda representam o poder devastador da depressão como doença, desde o momento em que ela surge sorrateiramente até quando se mescla com a rotina familiar. No fim, Melancolia paira como uma grande metáfora dotada de ambiguidade fascinante.

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  • http://cinelogin.wordpress.com Renato

    Fala, Alan!
    Passando aqui para agradecer sua visita ao meu blog e seu comentário ao meu humilde review de Capitão América.
    Demorei tanto que chego aqui e tu já mandou a crítica de Melancolia…hehehe

    Apesar ne não considerar o filme uma OP, considero bem bom.

    Dá uma olhada no minha crítica :D
    http://cinelogin.wordpress.com/2011/08/09/cinema-critica-melancolia/

    • http://www.nivelepico.com/ Alan Barcelos

      Oi, Renato.

      Obrigado a você também, por estar participando do NE!

      Quanto a rapidez do post… eu trabalho como crítico de cinema, por isso geralmente já tenho as críticas dos filmes que assisti escritas quando eles estreiam. :-)

      Vou ler sua crítica sim. ;-)

  • Renato Correa

    Um grande filme sobre o problema da morte e das diferentes maneiras que as pessoas reagem ao fato inevitável da finitude humana. Uma análise do absurdo da vida e das nossas convenções sociais. Obra que expõe o quão frágil somos diante da grandeza e do mistério tanto do Universo físico quanto do universo psíquico. Fotografia exuberante, atuações magistrais e final para jamais esquecer.

    • http://www.nivelepico.com/ Alan Barcelos

      Em suma… uma obra de arte. ;-)

  • André de Moraes

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