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Jogos Vorazes

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Jogos Vorazes

Jogos Vorazes (The Hunger Games, 2008) chegou trazendo um novo alento para um gênero literário que andava meio sumido das prateleiras: os romances distópicos e pós-apocalípticos. O livro é basicamente juvenil, mas apresenta de forma segura (e bastante adulta, devo dizer) uma narrativa impressionante e que tem forte teor de crítica social. Aparentemente inspirada no mito grego de Teseu e o Minotauro e apropriando-se de várias referências da ficção científica, a autora Suzanne Collins consegue destilar uma dura análise sobre a sociedade do espetáculo e das celebridades instantâneas do mundo contemporâneo e, como se não fosse o bastante, prende o leitor da primeira a última página com uma história envolvente e perturbadora. Eu (sem trocadilhos) devorei o livro em poucos dias.

A trama acontece aproximadamente 80 anos no futuro, muito tempo depois que catástrofes naturais, guerras e doenças devastaram a sociedade como conhecemos. A América do Norte foi totalmente destruída e reconstruída sob o nome da grandiosa nação Panem, que é constituída por treze distritos controlados pela poderosa Capital. Os distritos viviam sob um regime de opressão da Capital e, um dia, rebelaram-se. O resultado foi desastroso. A Capital saiu vitoriosa contra os doze distritos e o décimo terceiro foi completamente obliterado. Como punição, a Capital instituiu os Jogos Vorazes, em que, a cada ano, um menino e uma menina com idades entre doze e dezoito anos devem ser enviados como tributos por cada distrito para competir entre si numa luta até a morte, na qual somente um poderá sair vencedor. O grande atrativo da história é que os jogos são disputados em arenas especiais e televisionados para toda a Panem como se fosse um grande reality show. Todo processo de produção e desenvolvimento dos reality shows que estamos acostumados a ver na TV hoje em dia é explorado por Collins com um razoável grau de cinismo, mostrando o quão fútil e imbecil é uma sociedade que se diverte enquanto os participantes se matam para conseguir seus quinze minutos de fama. Aqui, no entanto, a premissa é tratada de forma bastante literal, porque os participantes realmente MATAM uns aos outros. Os Jogos Vorazes são uma ferramenta nas mãos da Capital, usada para controlar os habitantes dos distritos através do medo e evitar que novas rebeliões aconteçam — afinal, se eles podem levar crianças para se matarem enquanto os pais ficam sentados em casa assistindo, o que eles não podem fazer?!

O livro acompanha a jovem Katniss Everdeen durante a septuagésima quarta edição dos Jogos Vorazes. Ela é filha de um minerador de carvão que morreu numa explosão há cinco anos e, desde então, tem cuidado da família, formada por sua mãe e pela irmã pequena, Primrose. Katniss é uma personagem que, de cara, chama atenção. Ela é uma sobrevivente, que vive no distrito mais pobre da Panem — o Distrito 12 — e caça para ter um pouco mais para sua família comer no fim do dia. A caça é ilegal no país, mas como o distrito é o mais pobre também é, consequentemente, o mais ignorado pela fiscalização da Panem. Todavia, quando a caça não é o bastante, a garota sempre dá um jeito coletando ervas selvagens ou comercializando frutas e legumes em mercados, padarias e açougues ou comprando entradas extras para os jogos em troca de comida.

Então, o dia da escolha dos participantes para os jogos, chamados de tributos, chega. A colheita, como o sorteio é chamado, é praticamente uma loteria, organizada de modo que quanto mais velha a criança, mais chances ela tem de ser escolhida. Para completar, uma criança pode aumentar suas entradas no sorteio para receber alguns suprimentos extras por ano, algo bastante comum num lugar pobre como o Distrito 12, onde as pessoas precisam de qualquer ajuda disponível para não morrerem de fome. Aos dezesseis anos, Katniss já tem cinco vezes mais entradas do que o normal para a sua idade por causa da comida extra que ela pega para alimentar a mãe e a irmã. Porém, Primrose, que já tem doze anos, vai fazer sua estreia na colheita e tudo se complica porque, numa destas ironias do destino, ela é escolhida. Primrose tinha apenas uma chance de ser escolhida, enquanto Katniss tinha vinte e, mesmo assim, sua irmã adorada tornou-se o tributo. Katniss, no entanto, não aceita a decisão e se oferece para lutar no lugar de Prim e esta virada muda todo o rumo dos jogos — além de deixar o leitor definitivamente fascinado pela personagem.

Katniss é uma das heroínas mais interessantes que tive o prazer de conhecer recentemente. Ela é esperta e inteligente. Suas habilidades de caça garantem a ela uma vantagem extra nos jogos. Ela consegue seu próprio alimento e sabe quais as plantas que pode ou não comer. Ela sabe exatamente o que precisa fazer para sobreviver. As meninas protagonistas de séries juvenis atualmente não costumam ser personagens fortes. São geralmente frágeis e dependentes de um homem para protegê-las dos perigos. Quando são fortes, tem força apenas de personalidade. Katniss carrega um pouco desta fragilidade, mas ela suplanta isto em prol da sobrevivência. E, no fim, ela é quem defende… a si mesma e aos outros. Ela é forte moralmente e fisicamente… e dona de uma selvageria apaixonante. Além disso, ela é uma exímia arqueira… e, PORRA, nas mãos dela, um arco e flecha se torna a arma mais legal do mundo! Entretanto, a vida dela é difícil. Ela faz o necessário para sobreviver, mesmo que para isso tenha que fingir ser outra pessoa ou estar apaixonada por outra pessoa. Neste caso, entra em cena outro personagem, Peeta Mellark, o segundo tributo do Distrito 12, que acompanha Katniss aos Jogos Vorazes. Peeta tem uma função bastante específica; ele é SUPOSTAMENTE o par romântico de Katniss e emula um elemento também muito comum dos reality shows: os casais que são formados para atrair a simpatia do público. O romance entre Katniss e Peeta não deixa claro a divisão entre paixão real e fingimento — em certo ponto da história, fica difícil saber se Katniss e Peeta realmente se gostam ou se aquilo tudo é apenas uma estratégia de jogo. A subtrama às vezes parece meio forçada, pois tem aquele toque de romance adolescente melodramático que parece ser obrigatório na literatura juvenil atual, e até enfraquece um pouco o clima criado pela história; todavia, tem sua validade levando-se em consideração a importância que este elemento tem para os Jogos Vorazes e para a crítica social que eles representam.

O que se segue são os preparativos para os jogos. O Distrito 12, por ser o mais pobre, tem um histórico de derrotas e somente duas vezes seus tributos chegaram à vitória, embora somente um dos vencedores ainda esteja vivo. Assim, somos apresentados à Haymitch Abernathy, o único tributo vitorioso do Distrito 12 ainda vivo. Haymitch é um homem de meia-idade amargurado e dominado pela bebida. O destino dos vencedores dos jogos é treinarem as novas gerações de tributos de seu Distrito, mas, com o histórico de derrotas do distrito, a vida de Haymitch passou a ser um suplício — afinal, ele assume o fardo de conhecer estas crianças escolhidas e treiná-las… para depois vê-las morrendo. O personagem insere um elemento emocional a mais na trama. Não há como negar a força dos assuntos abordados por Suzanne Collins em sua história. A guerra e a violência sempre deixam cicatrizes nas gerações futuras e Haymitch é a epíteto claro destas cicatrizes das quais o mundo contemporâneo está repleto, desde as Guerras Mundiais até a recente Guerra no Iraque. Quem pode culpá-lo de ser um bêbado, depois de ver seus pupilos morrendo ano após ano?!

A preparação nos apresenta ainda o estilo de vida da Capital e, nesta hora, são evidenciados os contrastes entre os padrões altos daqueles que estão na elite social e miseráveis daqueles que estão chafurdados na pobreza. Collins também mostra este lado com maestria. Os personagens Effie Trinket e Cinna tornam-se as principais engrenagens para trabalhar esta ideia, pois são os responsáveis por adaptar Katniss à cultura abastada da Capital, de modo que ela possa ter alguma chance de sobreviver. A questão funciona de forma parecida com os reality shows; o público precisa ser cativado pelo participante e, se isto acontecer, ele receberá apoio (itens, comida, medicamentos, armas etc.) durante os jogos, mas se não for bem visto, não terá chance alguma. Ou seja, se o público não gosta de você, seu destino é o paredão e fim de jogo. Effie e Cinna surgem para dar esta chance a Katniss, afinal, ninguém vai querer dar apoio para uma garota de aspecto rústico e sujo, mas para alguém que sobressaia. Katniss aceita estas coisas com algum desprezo, embora aos poucos acabe se adaptando. Ela viveu a vida com fome, sobrevivendo com uma dieta de animais, plantas e raízes, enquanto as pessoas da Capital podem ter qualquer alimento apertando um botão. Este contraste também fornece elementos ímpares para o cenário, que tornam a história ainda mais interessante — é incrível ver a reação de Katniss quando ela toma, pela primeira vez, um suco de laranja… sim, SUCO DE LARANJA… uma coisa tão boba e corriqueira para nós, que na história é transformada num manjar dos deuses para uma pessoa que passou a vida na miséria e nunca soube o que era isso. Faz pensar em como devemos dar valor ao que temos na vida, pois enquanto muitas vezes temos um café-da-manhã farto na mesa, muitas pessoas por aí não têm sequer um pão para comer.

Outro ponto interessante no qual o livro toca é o voyeurismo na televisão contemporânea. Como a perversidade humana é exacerbada no momento em que apreciamos ver os outros sofrerem em rede nacional. Sim, porque os reality shows são apenas uma ferramenta da mídia para conseguir audiência em cima da desgraça e humilhação alheia. Os programas podem até ter algum valor como estudo da índole humana blábláblá… mas, no fim das contas, são apenas um retrato da decadência, que, além das “funções” supracitadas, também servem para entorpecer a mente da sociedade para seus reais problemas — algo do tipo alimentar a população com “pão e circo” — ou você acha que um nome como Big Brother foi escolhido por acaso?! Não sou hipócrita a ponto de dizer que nunca assisti a um reality show, porque já assisti… justamente como diversão despretensiosa para esvaziar um pouco a mente, mas tenho consciência da idiotice que é… e, hoje em dia, prefiro dedicar meu tempo livre à leituras como Jogos Vorazes. Por falar, em Big Brother, uma das maiores referências da autora para sua obra é 1984 (1948), de George Orwell. Em Jogos Vorazes, no entanto, os organizadores dos jogos são ainda mais extremistas do que os da vida real e criam perigos adicionais para os jogadores com o objetivo de manterem a disputa interessante aos olhos do público. Se eles tiverem que atirar bolas de fogo nos tributos para juntarem-nos na arena ou remanejarem as regras para fazer com que dois amantes se enfrentem no final, eles farão isso sem piedade. Há ainda outras ideias bem legais que complicam a vida dos participantes, como animais e insetos geneticamente modificados durante a rebelião na Panem e que hoje são usados como armadilhas na arena. As vespas teleguiadas são maneiríssimas, os lobos mutantes são bizarros e o pássaro tagarela (cujo nome inglês original é mockingjay) é bem peculiar. Aliás, cabe aqui uma ressalva à tradução do livro, que foi publicado no Brasil pela Editora Rocco; o pássaro tagarela ora é traduzido como tordo, ora como gaio tagarela, causando uma confusão de nomes que às vezes atrapalha a compreensão, já que o pássaro é uma figura importante na história. A ave é aquela representada no símbolo dourado que aparece na capa, que é também um pingente usado por Katniss. Aliás, a tradução do nome do terceiro livro da série, chamado Mockingjay, aqui no Brasil foi definida como “A Esperança” — e me parece mais sensato do que colocar um nome do pobre pássaro cuja tradução para o português é ineficiente.

O livro tem falhas, mas estas não atrapalham o conjunto, às vezes até ajudam. Seu mérito tem mais valor por nos entregar uma narrativa intrigante, que mexe com nossos próprios conceitos e toca em temas inquietantes e desconfortáveis enquanto brinca com a natureza humana. Jogos Vorazes é violento, ágil e controverso. Suzanne Collins contribui bastante com uma escrita estilizada e repleta de sarcasmo e humor negro. Para completar, a autora bebe de fontes bastante atrativas, como os livros: Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley; O Concorrente (1982), de Stephen King, publicado sob o pseudônimo de Richard Bachman; e Battle Royale (1999), de Koushun Takami (que também foi adaptado para o cinema e transformado num mangá). O romance é apenas o primeiro de uma trilogia, que conta ainda com Em Chamas (2009) e A Esperança (2010). Em suma, Jogos Vorazes é uma obra que merece ser lida, por sua história empolgante, cheia de reviravoltas e ação, e por seus personagens complexos e carismáticos.

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  • Ramyson Lucas

    Alan Barcelos, estou sem palavras. Sua resenha está EXCELENTE. Parabéns!

    • http://www.nivelepico.com/ Alan Barcelos

      Obrigado! :-)

  • http://www.vivimaurey.com.br Vivi Maurey

    Cara… sem palavras tb! Tá realmente MUITO redonda!

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