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Wolf’s Rain

Wolf’s Rain

Wolf’s Rain (2003) é um anime de 30 episódios que eu lembro ter gerado bastante repercussão na época de sua estreia, mas que demorei um pouco para assistir. O motivo da repercussão é que a série tinha sido desenvolvida pelo estúdio Bones e trazia a mesma equipe responsável por um dos animes mais conceituados já feitos: Cowboy Bebop. Entre os nomes por trás do desenho estavam o criador da história original Keiko Nobumoto e o diretor Tensai Okamura, que conseguiram produzir um anime realmente fantástico, mas, ao mesmo tempo, problemático.

A trama se desenvolve num futuro muito distante, quando, segundo as crenças, os lobos estariam extintos há cerca de 200 anos. No entanto, os lobos ainda existem e aprenderam a se disfarçar como humanos para evitarem a perseguição, uma vez que eles não são bem-vistos pela sociedade. Segundo as lendas, os lobos são criaturas místicas e, no final dos tempos, somente eles, fortalecidos pela misteriosa Flor da Lua, seriam capazes de encontrar o local exato da entrada do Paraíso. E o final dos tempos está próximo. O mundo está mergulhado no caos e a esperança de salvação não passa de um conceito efêmero. A paisagem de todos os lugares encontra-se coberta por um profundo branco e um cinzento amargo, que enaltecem a atmosfera decadente. As cidades tornaram-se lugares frios e arruinados, onde somente os mais fortes sobrevivem. Além disso, são normalmente dominados pelos chamados nobres, aristocratas sombrios que vivem imersos em guerras particulares e que detém o poder através da força de seus exércitos. Os nobres, que parecem fortemente inspirados no mito dos vampiros, teriam sido os responsáveis pela extinção dos lobos após caçá-los impiedosamente. Os lobos, escondidos por seus disfarces, começam a ressurgir e iniciam uma corrida pelo Paraíso. O principal deles é Kiba, que surge na cidade com o objetivo de encontrar a filha da Flor da Lua e levá-la ao Paraíso com ele. No caminho, ele encontra outros três lobos que tomam-no como alfa da alcateia e seguem-no em seus ideais; são eles: o frio e desconfiado Tsume, o despreocupado e comilão Hige e o ingênuo e inexperiente Toboe. Juntos, eles conhecem Cheza, uma menina estranha e com olhos vermelhos que foi criada através de engenharia genética a partir das Flores da Lua. Atraídos pela garota, os lobos resgatam ela do laboratório onde era mantida e lutam para ficar ao lado dela, tornando-se capazes dos maiores sacrifícios para protegê-la. Porém, nobres e cientistas também querem a garota; como se não fosse o bastante, Quentin Yaiden, um velho caçador de lobos, junto com sua cadela Blue, surge no encalço dos protagonistas na tentativa de matá-los para vingar a morte da família. Os caminhos de todos acabam se cruzando na busca pelo Paraíso, um objetivo que constitui o grande pilar da trama e aparece como um lugar mais tangível do que aquele idealizado por crenças religiosas ou filosóficas.

O anime é bastante complexo em sua narrativa e possui um conteúdo carregado de questões existenciais e psicológicas. O enredo é rico e denso, com muito simbolismo e referências a diversas outras histórias e folclores. Apesar de tudo, a abordagem é bastante direta, embora deixe algumas lacunas para o espectador preencher com seus próprios conceitos e imaginação. As relações e os sentimentos por trás delas são também as grandes forças motrizes da trama. A amizade é apresentada como um fator determinante para o sucesso; um lobo sozinho e independente pode chegar a algum lugar, mas uma alcateia pode chegar ainda mais longe por causa da força que a união promove uns para os outros. Os lobos são seres tão sociais quanto os humanos e aprenderam a se disfarçar como os humanos e se adaptaram até mesmo as suas emoções, mas, no fim, também são eles que ensinam os verdadeiros valores da vida para uma humanidade decadente. O anime também toca muito em assuntos sobre as relações entre homens e mulheres e entre os humanos e a natureza. Estas questões concedem peso à narrativa, deixando, inclusive, pouco espaço para o humor. Há algum alívio cômico nas confusões dos lobos Hige e Toboe, mas, mesmo eles são tragados em algum momento pela tragédia que paira sobre a história.

O problema é que toda esta densidade cobra seu preço. A série é bastante original e isto é inegável, mas o ritmo decai consideravelmente a partir do episódio 15. Depois de um começo promissor e empolgante, do nada, dos episódios 15 ao 18, acontecem “recaps” — aqueles episódios irritantes que recontam fatos importantes da série até aquele momento e não passam de fillers maquiados. No caso, são quatro episódios feitos um para cada protagonista, recontando a história de cada um, que já foi contada anteriormente… ou seja, chato pra caralho! Depois dos recaps, o anime, infelizmente, perde a direção e começa a desandar com muitos arcos paralelos, aparição de personagens desnecessários e dramalhão excessivo. Wolf’s Rain ainda é muito bom… mas, com certeza, poderia ter sido ainda melhor. Parece que, em algum ponto da produção, alguma coisa se perdeu. Na verdade, o enredo só reencontra os rumos no final, quando a narrativa sinuosa culmina num desfecho tocante que oscila entre a felicidade e a tristeza, bem do jeito que os japoneses gostam em suas histórias.

Já a qualidade técnica é, sem dúvida, o maior mérito de Wolf’s Rain. A arte e a animação são incríveis, com traços bem delineados, paisagens e cores maravilhosas, cenas visualmente lindas e riqueza de detalhes. Tudo é trabalhado com bastante cuidado. A ação reverencia as características selvagens da ambientação, com lutas violentas entre os lobos e seus inimigos e perseguições realmente alucinantes. Além disso, os confrontos são sempre tensos e impactantes, tornando cada batalha um obstáculo real a ser superado pelos personagens em sua jornada. Soma-se a isto a impecável trilha sonora. As canções são de autoria de Yoko Kanno, compositora bastante conhecida por seu trabalho em animes, seriados e filmes japoneses. Um grande destaque da trilha são as músicas incidentais que apresentam vários estilos e idiomas, como inglês e italiano. Uma delas, chamada Coração Selvagem… pasmem… é cantada em português (algo realmente raro e curioso de se ouvir num desenho japonês). Porém, os maiores destaques são as canções de abertura e encerramento. O tema de abertura, Stray, cantada por Steve Conte, é uma ótima música e dá o clima perfeito para a história que vamos acompanhar cada vez que a abertura termina e o episódio começa. E o tema de encerramento, Gravity, cantada pela sempre maravilhosa Maaya Sakamoto, é simplesmente uma das músicas mais linda que já ouvi. Ambas as músicas são tão boas que dá vontade de escutá-las repetidamente.

O estúdio Bones não conseguiu o êxito obtido com Cowboy Bebop (1998) e o magnífico RahXephon (2002) com este anime, mas, não há como negar que Wolf’s Rain tem seu valor por sua excelência visual e por sua história instigante e encantadora.

Nível Heroico



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