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Estranhos Normais

Estranhos Normais

Estranhos Normais (Happy Family, 2010) é um filme que faz justiça ao seu título brasileiro, pois é bem estranho, embora de uma maneira agradável. A história dirigida por Gabriele Salvatores acompanha a saga de um escritor em busca de bons personagens e também dos personagens deste escritor, que estão desesperadamente em busca de um autor. O longa entrelaça continuamente realidade e ficção de uma forma em que o protagonista explora todas as possibilidades de sua história mantendo estreito contato com ela, como se ele próprio a estivesse vivenciando. E não seria esta a sensação que cada escritor tem enquanto produz uma obra sua?! O filme é uma adaptação moderna da uma peça italiana de sucesso: Seis Personagens à Procura de um Autor, de Luigi Pirandello, e uma grande homenagem ao mundo do cinema e do teatro.

O início é focado em Filippo (Gianmaria Biancuzzi) e Marta (Alice Groci), dois adolescentes que subitamente decidiram se casar. A família de cada um deles está apreensiva e cada membro tem sua própria opinião sobre o casório, embora muitas vezes estejam mais preocupados com a própria vida do que com os arroubos incompreensíveis de dois jovens. A mãe de Marta (Carla Signoris) reage histericamente e não gosta do menino, enquanto o pai dela (Diego Abatantuono) está sempre inerte, mais interessado na erva para fazer sua maconha. Filippo tenta convencer a mãe Anna (Margherita Buy), embora tenha o apoio do pai Vincenzo (Fabrizio Bentivoglio), que sofre escondido com uma doença terminal. Ambas as famílias reúnem-se para um jantar no qual será oficializado o pedido, porém, com a interação entre as famílias, o foco da história muda e os personagens principais do filme, até então incertos, são plenamente apresentados e desenvolvidos. O roteiro, de fato, acompanha o que seria um processo criativo. Ezio (Fabio De Luigi), o escritor, torna-se narrador e protagonista de sua própria história. Com a reviravolta, outra personagem também ganha destaque: a irmã mais velha de Filippo, Caterina (Valeria Bilello).

A fotografia, os cenários e os figurinos são pontos fortes do filme; sequências inteiras são trabalhadas com tons brilhantes de vermelho, amarelo, verde etc., fortalecendo ainda mais o surreal da história, enquanto as cenas focadas na realidade são muitas vezes apresentadas em preto e branco. Os fatos desenrolam-se numa Milão representada de forma belíssima e fotogênica, quase como se fosse uma das personagens do filme. Ezio engloba os lugares físicos e imaginários na busca por sua história e oscila entre realidade e ficção tão naturalmente que demora até percebermos quem são as pessoas reais e quem são as fictícias. Estranhos Normais é uma overdose gratificante de metalinguagem — é a arte imitando a arte. A narrativa sobre uma narrativa conduz o espectador pelas inventividades do que parece ser um alter-ego da própria Salvatores, que dirige o longa inclusive lançando mão de técnicas teatrais, demonstrando uma capacidade impressionante para fazer o público rir ao mesmo tempo em que se angustiam com um nó constante em suas gargantas. Salvatores derruba a quarta parede sem medo e torna os personagens mais próximos do público ao fazer com que eles destilem seus anseios para a plateia. Na metade do filme, provavelmente, você já estará cativado e pensando que aquela história poderia ter acontecido com você. A comédia e o drama, os momentos felizes e tristes, se revezam sutilmente assim como acontece na vida. Estranhos Normais é, antes de tudo, um retrato sobre a vida, sobre como não devemos ter medo de viver.

Todavia, a sua maneira, Estranhos Normais também é uma produção para os apaixonados em cinema, cheio de referências a filmes clássicos como: Desconstruindo Harry (1997, de Woody Allen), Os Excêntricos Tenenbaums (2001, de Wes Anderson), Os Suspeitos (1995, de Bryan Singer… ele mesmo) e até mesmo A Primeira Noite de Um Homem (1967, de Mike Nichols). Além disso, existe um elemento de psicanálise na trama, quase como uma expressão da capacidade das pessoas de encontrar a felicidade. O discurso explora bastante a ideia de que o maior empecilho para a realização pessoal é o medo: medo da mudança, medo do novo e do já é conhecido, medo de se envolver, medo de cometer erros e, acima de tudo, medo de ser feliz. O próprio Ezio inicia a narrativa explicando o medo, falando diretamente ao público sobre como a vida para muitos é uma vida idealizada de cinema. O medo é destrinchado e exorcizado à medida que os fatos se desenrolam, deixando uma calmaria que é capaz de suplantar até mesmo contra o medo da morte.

O elenco completa o espetáculo. Fabio De Luigi está bastante convincente como o escritor em crise, mas que, ao mesmo tempo, é um cara sagaz e criativo. Sua narração nos deixa eternamente em dúvida se a história que ele está contando foi baseada em fatos reais que aconteceram com ele ou simplesmente invenções de sua cabeça. Ele também demonstra uma química satisfatória com a bela Valeria Bilello. Porém, o destaque fica para Fabrizio Bentivoglio e Diego Abatantuono. Bentivoglio decididamente rouba cada cena em que aparece e possui uma expressão de corpo e de olhar arrebatadora; você vai sofrer com ele em sua luta contra o câncer e vai ficar feliz com ele ao ver seu amor pela vida e por sua família. Abatantuono, como o outro pai da história, é o contraponto, que diverte em cada aparição. Quando estes dois homens se juntam em cena, o resultado é gratificante. O melhor momento do filme é quando estes dois pais juntos partilham as responsabilidades após a reunião entre as famílias e criam um forte laço de amizade que nos convence de que eles se conhecem há anos, embora nunca tenham se encontrado até a decisão de casamento de seus filhos. A interação entre os dois atores é fantástica e comovente. O nome escolhido aqui no Brasil não poderia ser mais acertado, pois é isto que aquelas famílias são: pessoas estranhas nos pensamentos e atitudes e estranhas umas para as outras, mas que são tão normais quanto você e eu. No fim, Estranhos Normais é um bom filme por isto… por causa da visão normal desta nossa vida estranha.

Nível Exemplar



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