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A Batalha do Apocalipse

(A Batalha do Apocalipse) – Fantástico. Brasil, 2010. De Eduardo Spohr. Com os personagens Ablon, Shamira, Miguel, Lúcifer, Apollyon, Aziel e Amael. Editora Verus. 586 páginas.

A Batalha do Apocalipse: Da Queda dos Anjos ao Crepúsculo do Mundo é o romance fantástico que deu asas a Eduardo Spohr. Sua história é sobre um herói que, assim como o próprio autor, teve que singrar campos difíceis em sua jornada para conseguir o tão esperado “retorno com o elixir”. O livro, escrito entre 2003 e 2005, foi lançado originalmente pela NerdBooks, selo do site Jovem Nerd, do qual Spohr é integrante. A publicação atingiu um sucesso estrondoso na internet e possibilitou novas tiragens que firmaram o livro no gosto dos leitores. Spohr também contou com o apoio do pessoal do Jovem Nerd, com direito a um episódio de podcast só para a obra: Nerdcast 80. Ainda hoje tenho a versão de capa amarela lançada pela Nerdbooks em 2009, atualmente uma edição de colecionador.

Com o sucesso, A Batalha do Apocalipse foi descoberto por uma editora maior e encontrou seu espaço nas prateleiras das livrarias de todo o Brasil. A versão atual, de capa azul, foi lançada em 2010 pela Verus Editora, do Grupo Editorial Record, e rapidamente se tornou uma das obras mais vendidas do mercado nacional, ganhando até mesmo uma edição especial de capa dura. É um feito impressionante para um autor brasileiro de literatura fantástica e um passo importante para a cultura literária brasileira. Eduardo Spohr é um exemplo de heroísmo e determinação para superar os desafios. A Batalha do Apocalipse é sobre isso: heroísmo e superação.

A trama acompanha a jornada do herói Ablon, um anjo que outrora foi o Primeiro General dos Querubins, a casta de anjos guerreiros, e hoje vive como um Anjo Renegado, preso eternamente sob a forma humana de seu avatar e incapaz de voltar ao Paraíso. Sua terra natal enfrenta problemas por causa da tirania de Miguel, o primogênito de Deus e o maior entre os cinco Arcanjos (os outros são Gabriel, Uziel, Rafael e Lúcifer), fato que obriga Ablon a tomar novamente posição numa guerra que já não é mais sua. Assim, somos apresentados à história do Anjo Renegado sob dois pontos de vista. No principal, presenciamos o desenrolar de fatos que assolam o mundo contemporâneo e estão levando toda a realidade à destruição. O fim dos tempos está próximo. Ablon torna-se uma peça importante no jogo de poder e guerra do mundo espiritual enquanto o mundo físico perece ante o som das trombetas do Apocalipse. Já na trama secundária, descobrimos como Ablon tornou-se a lenda que é nos dias atuais. Os flashbacks, no melhor estilo Highlander, mostram as viagens do Querubim por quase todas as eras e culturas da humanidade, desde a ruína da Babilônia até a Inglaterra Medieval. Numa destas viagens, Ablon conhece Shamira, uma necromante que se torna a maior amiga e companheira do anjo em sua solidão terrena. Com base nestas duas linhas narrativas, a história vai se entrelaçando enquanto somos conduzidos pelos caminhos que levam à batalha que vai mudar o rumo da existência.

A Batalha do Apocalipse é uma história que tem todos os ingredientes para ser um bom épico e Spohr consegue utilizá-los com sabedoria. Ele usa uma narrativa quase cinematográfica, com detalhes que tornam cenários, personagens e objetos perfeitamente visíveis para o leitor. Toda a ambientação nos faz pensar a todo instante em como seria se o romance fosse um filme. De fato, o próprio Spohr confirma que antes de conceber o texto como um livro, ele o escreveu em forma de roteiro, acrescentando depois os flashbacks e o detalhamento histórico mais aprofundado. Aliás, o detalhamento histórico é outra importante característica da obra.

A forma como fatos, lugares e personagens históricos são mostrados revelam uma pesquisa rica que torna a trama mais crível. Spohr usa referências cristãs, gregas e de várias outras religiões e filosofias para criar seu universo, muito influenciado pelo conceito de “monomito” do antropólogo Joseph Campbell. Os anjos são trabalhados como figuras presentes na concepção da humanidade como um todo, sem distinção de etnias ou afins. Eles atuam como os soberanos da Haled (como a Terra também é chamada) e, sob o despotismo do Arcanjo Miguel, tornam-se completamente diferentes da ideia primordial que temos sobre anjos, com suas auras de eterna bondade e suas asas de penas brilhantes. Na verdade, aqui, os anjos podem ser tão cruéis quanto os demônios. Embora privados do livre-arbítrio dado aos humanos, são constantemente movidos por sentimentos avassaladores com os quais eles, talvez pela falta de escolha, são obrigados a conviver, para o bem ou para o mal. Os anjos, na verdade, são mais parecidos com os deuses da mitologia grega, sempre tão próximos e, ao mesmo tempo, tão distantes dos mortais. A forma como a Babilônia é descrita, a queda da Torre de Babel, a história do nascimento de Jesus Cristo… tudo é construído como parte de uma ambientação coerente. Uma das grandes sacadas da história é a explicação para a criação do mundo em sete dias, na qual cada dia é equivalente a uma era inteira. O Sétimo Dia no qual Deus descansou é, na verdade, a nossa era desde os primórdios da humanidade. Muito bom!

A Batalha do Apocalipse

A Batalha do Apocalipse

Os personagens são outro grande mérito. Eles são bem desenvolvidos e portadores de características que os tornam únicos e fascinantes, até mesmo os secundários. Ablon, por ser o protagonista, é o mais aprofundado de todos, de tal forma que em vários momentos nos sentimos como amigos próximos do anjo enquanto ele narra suas façanhas e tragédias. Ablon é o arquétipo do herói pleno, em todos os aspectos. Ele é justo, leal, corajoso, honrado, decidido e imponente; é um herói clássico, como não se vê na literatura há muito tempo. Você torce por ele, acompanha de perto suas atitudes e compreende suas motivações. Mais do que isso, você vibra com suas habilidades e seus poderes.

O livro também traz muitas referências do RPG, tanto na narrativa quanto na construção dos personagens, e uma das coisas mais legais é a Vingadora Sagrada, a espada de Ablon. Qual jogador de Dungeons & Dragons que já tenha interpretado um paladino nunca quis ter uma Vingadora Sagrada nas mãos? É uma das espadas mais valiosas que um campeão do bem poderia ter! Spohr insere esta lenda do RPG em sua história e nas mãos de seu protagonista, enaltecendo ainda mais a característica de Ablon como herói e campeão da justiça.

Além de Ablon, outros personagens são desenvolvidos, uns mais do que outros. A necromante Shamira é um dos elementos-chave da trama, já que muitos acontecimentos são impulsionados por ela ou centralizados nela. Ela tem momentos fracos e até mesmo chatos, mas, no todo, é uma personagem incrível e responsável por uma virada inesperada na história. A relação entre Ablon e Shamira é uma das forças da história e expõe agradavelmente temas como amizade, respeito, lealdade e amor, mostrando o quão importante são estes sentimentos para os humanos e o quão fortes os humanos são por possuí-los (mais fortes até do que anjos e demônios).

Outros personagens interessantes são Aziel, a Chama Sagrada, e Amael, o Senhor dos Vulcões; eles possuem uma participação pequena, mas realmente empolgante. Dentre os antagonistas, a participação de Lúcifer é a melhor. O personagem é responsável pela intriga que transformou Ablon num Anjo Renegado e demonstra motivações obscuras durante todo o enredo – você nunca sabe o que esperar dele. – E há ainda Apollyon, o Anjo Destruidor, o personagem mais fraco e perdido da história. Ele é apresentado como o grande inimigo de Ablon, mas no fim acaba sendo apenas uma máquina de matar, pilhar, destruir; eu esperava mais do antagonista. Deixou a desejar. E pra concluir o raciocínio: eu queria uma Flor do Leste pra mim!

Quanto a estrutura narrativa, o livro tem acertos e erros, todos naturais considerando que trata-se de uma história intrincada contada num livro de aproximadamente 600 páginas. Há muitas coisas que nos lembram de Star Wars e Senhor dos Anéis. As lutas e cenas de ação são totalmente Cavaleiros do Zodíaco. Os flashbacks é que são geralmente o maior problema da história. No geral, são muito bons; mas às vezes, são desnecessários. Eles são descritos normalmente como subcapítulos inseridos em meio à trama principal; uma ideia boa e bem explorada pelo autor, bem inspirada mesmo na ideia de Highlander. O problema está em alguns flashbacks que contam histórias paralelas e são, eventualmente, grandes demais. Estes flashbacks têm seu valor na medida em que aprofundam a história da vida de Ablon, mas, por estarem inseridos no meio da trama central, às vezes quebram o ritmo da leitura e acabam tornando-se cansativos. Alguns acrescentam bastante para a história, outros, nem tanto, e estes últimos poderiam ser menores. Ainda assim, a ligação entre os flashbacks e a trama central nos proporciona uma visão incrível do mundo criado por Spohr, que é ainda mais detalhado em um glossário no final da obra.

Eduardo Spohr, com A Batalha do Apocalipse, cria um marco na literatura fantástica brasileira, e isso é muito bom! Seu livro é uma obra densa, heroica e repleta de mistérios a serem resolvidos (e que são bem resolvidos no final). É um livro que, sem dúvida, merece ser lido e eu recomendo fortemente. “Submerge o último elo com um universo decrépito. Uma nova chance se abre ao mundo.”

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