Cinema

Namorados Para Sempre

Namorados Para Sempre

Namorados Para Sempre (Blue Valentine, 2010) não é um filme feliz. O nome em português foi escolhido para aproveitar o momento de Dia dos Namorados, mas a história não é, nem de longe, água com açúcar. Na verdade, o nome original carece de uma tradução exata, principalmente porque foi inspirado numa música homônima, de Tom Waits. Dito isto, Namorados Para Sempre é filme maravilhoso do seu jeito. O azedume que permeia a trama pode incomodar um pouco, mas serve perfeitamente bem às intenções da história que o filme quer contar. O longa é profundo, tocante e até mesmo perturbador por mostrar o fim de um relacionamento entre duas pessoas que ainda se amam, mas não têm a mesma admiração e respeito de antes um pelo outro.

Namorados Para Sempre é o tipo de história que esfrega a realidade na cara do público com sutileza. O filme mostra temas como relação e casamento de um ponto de vista mais pessimista e não deixa espaço para considerações sobre príncipes encantados, mulheres perfeitas e amores eternos. Cindy (Michelle Williams) e Dean (Ryan Gosling) são os intérpretes deste drama. Eles vivem um casamento de sete anos consumido por fracassos e desilusões. Sua união deve-se somente às juras de amor do passado, a uma cumplicidade gerada pelo acaso e a uma linda filha, Frankie (a fofíssima Faith Wladyka). Ela nutre esperanças de uma vida melhor e luta para consegui-la; ele vive somente para aquilo que tem no presente, sem se preocupar com sonhos ou ambições. Em algum momento, o conflito de interesses gera uma frivolidade que torna a situação insuportável não só para os personagens, mas também para nós, espectadores, que sentimo-nos ativamente inseridos naquela triste relação. Em contraponto, acompanhamos a beleza de como tudo começou através de flashbacks, quando era tudo paixão e sinceridade.

Nesta maravilha da sétima arte, os personagens aproximam-se tanto do público em suas angústias que é possível sentir o nó na garganta. O mérito vai para o diretor Derek Cianfrance, que usa planos e enquadramentos mais intimistas, despertando esta ideia de aproximação no público. Além disso, consegue mostrar a realidade com uma perfeição incomum no cinema. Somam-se as atuações firmes e impecáveis de Williams e Gosling, que extrapolam todos os limites passionais na representação de sua falida e sufocante relação. Os dois atores parecem ter um dom para se exporem, mesmo quando parece que eles já usaram todos os seus artifícios de atuação. Em um flashback, por exemplo, Dean canta singelamente uma serenata com a letra de “We always hurt the ones we loves” (Nós sempre machucamos aqueles que amamos) enquanto Cindy sapateia para ele. Os amantes exibem um brilho inocente, incapazes de perceber o infortúnio carregado na letra daquela música, diferente da certeza que neste momento já se abateu sobre o público. Aliás, há de se mencionar que a trilha sonora é um destaque a parte e contribui muito com o clima da película.

A atriz Michelle Williams mostra que está amadurecendo a cada filme em que atua. Quem diria que aquela menina do seriado Dawson’s Creek (1998) se tornaria dona de uma carreira tão respeitável?! Com uma inegável coragem artística, desde sua indicação ao Oscar por O Segredo de Brokeback Mountain (2005), ela vem escolhendo papéis mais desafiadores e esbanjando talento neles (como em A Ilha do Medo, 2010… só para citar um). Já Ryan Gosling não fica muito atrás com seu marido bem-intencionado. O diretor parece querer “puxar a sardinha” para o lado de seu personagem masculino, que se apresenta como um bom e compreensivo moço, que cuida de velhinhos no hospital, chora por seu cachorro e trata sua filha com todo o carinho do mundo. É impossível não gostar dele, o que acaba gerando alguma repulsa pela personagem de Williams. O ápice se dá num motel, num quarto temático, onde a relação é destrinchada com crueza, sem qualquer paixão ou excitação. O “azul” do nome original talvez derive desta frieza, enaltecida pela imagem azulada comum ao longo do filme, mas especialmente usada nesta sequência do motel. De fato, torcer por um final feliz em Namorados Para Sempre é quase um atestado de ingenuidade quanto ao real significado de felicidade. Confuso?! Talvez esta seja a ideia, afinal, aquilo que me faz feliz não necessariamente fará o mesmo por você.

Namorados Para Sempre discursa sobre a terrível fragilidade do amor e esta é a experiência que se pode tirar dele. Poucos filmes retratam o desenrolar de um casamento com tamanha tristeza e sobriedade. A melodia de despedida é melancólica e expressa o quanto aqueles corações estão partidos. Provavelmente, será assim que você sairá do cinema: com o coração partido. Entretanto, poderá também ficar extasiado por ter acompanhado uma história tão comovente e brilhante.

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  • Evellyn Pacheco

    Adorei o filme!!!

  • http://dicaaleatoria.wordpress.com/ Carolina Souza

    Já estava com vontade de assistir antes. Agora então…

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