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Thor

Thor

Adaptar um personagem da Marvel Comics para os cinemas não é uma tarefa fácil. Com uma legião de fãs fervorosos e os milhões gastos para transformar os heróis em grandes franquias, a pressão é, sem dúvida, pesada. A Marvel Studios, desde que assumiu as rédeas de seus personagens, vem fazendo um trabalho exemplar. Homem de Ferro (2008) foi um sucesso inegável e até mesmo O Incrível Hulk (2008), apesar de mediano, demonstrou empenhou em contar uma boa história para o gigante esmeralda. Kenneth Branagh decidiu aceitar o desafio de transpor o deus nórdico para as telonas e se provou uma escolha acertada. O diretor trata a adaptação com o respeito que um herói da Marvel merece e dá todo o tom épico que se esperaria de um típico edda, um poema sobre mitologia nórdica.

Há de se convir que Thor é um personagem complexo. Fruto de um período de assumida crise criativa do grande Stan Lee, o personagem foi criado como uma espécie de tapa-buraco para cobrir a demanda da editora na década de 60. Totalmente inspirado na mitologia escandinava, tudo no universo do herói tornou-se muito alegórico, o que poderia facilmente estragar a transposição para o meio cinematográfico. A verdade é que ninguém queria ver outro herói de quadrinhos ridicularizado no meio de um carnaval de luz, cores e fantasias como já ocorrera em Batman Eternamente (1995). Porém, Branagh consegue explorar este lado alegórico com um senso de seriedade que vai agradar os fãs e até mesmo o público geral. O cineasta garante um filme de ação inteligente, permeado por efeitos especiais bem feitos, uma fotografia de cair o queixo e um senso de humor irônico. O figurino, por sua vez, ficou perfeito e aceitável dentro dos padrões daquele universo (ou universos).

Na trama, Thor (o novato Chris Hemsworth) é o deus do trovão do reino de Asgard. Filho do todo-poderoso deus Odin (Anthony Hopkins), ele está pronto para substituir seu pai com regente do reino, quando seus planos são frustrados pela invasão de antigos inimigos, os Gigantes de Gelo. Thor mostra-se um herdeiro mimado, arrogante e impulsivo e acaba ultrapassando os limites do bom-senso quando tenta evitar uma guerra contra os gigantes. Seu pai, furioso, retira seus poderes e o exila na Terra, onde ele tem que reaprender seus valores e corrigir seus pecados antes de poder voltar a ser o deus do trovão. Na Terra, ele recebe a ajuda de Jane Foster (Natalie Portman), mas tem que enfrentar os perigos criados por seu inescrupuloso irmão, Loki (Tom Hiddleston).

Thor (2011) consegue ser não só um bom filme, mas também uma boa produção sobre mitologia nórdica, já que são lendas dificilmente exploradas nas telonas, ao contrário do que acontece, por exemplo, com a mitologia grega — vide Fúria de Titãs (2010) e Percy Jackson e o Ladrão de Raios (2010). A história se mantém parcialmente fiel aos quadrinhos, com algumas liberdades tomadas para melhor adaptar o filme ao grande universo que a Marvel está criando no cinema. Contudo, são alterações que vêm para o bem e não atrapalham em nada. O conflito de caráter entre Thor e Loki dá movimento e rumo ao enredo, como uma grande disputa política motivada por intrigas, inveja e ciúmes — nada muito diferente dos conflitos humanos. Na verdade, o diretor explora os mitos antigos sem parcimônia e exalta como os assuntos divinos são fortemente motivados por emoções puramente humanas. A vitória de Thor sobre sua própria prepotência é o que se espera de qualquer bom rei (ou governante), ainda que isto dificilmente aconteça na nossa realidade. Além disso, o filme consegue integrar a magia e a ciência de forma concisa, uma vez que estes são elementos importantes quando se leva em conta um ambiente místico que inevitavelmente vai convergir com os cenários científicos de Homem de Ferro e O Incrível Hulk.

O elenco também se mostra afiado. Hemsworth oferece um desempenho agradável e convence nos momentos cômicos, nos mais tensos e nos momentos de brutalidade. Hopkins, como o veterano que é, transborda imponência como o Pai de Todos os Deuses. Portman assume a dupla responsabilidade de cientista séria e interesse romântico, mas é difícil para uma mera mortal sobressair em meio a tantas divindades super poderosas e a atriz apresenta pouco da capacidade que provou ter em Cisne Negro (2011). Por vezes, ela é até apagada pela atriz Kat Dennings, que aparece como a peculiar e engraçada Darcy. Temos ainda Hiddleston, que é de longe a melhor atuação. O ator apresenta um vilão forte e ambíguo, conduzido pela mistura adequada entre interpretação verbal e linguagem corporal. Em cena, Loki consegue passar suas obscuras emoções apenas através de gestos, exatamente o que se espera de um dos vilões mais traiçoeiros da Marvel e daquele que vai assumir a responsabilidade de ser o grande inimigo de Os Vingadores. Só para constar, devo mencionar que Jeremy Renner faz uma participação não creditada, mas realmente empolgante, como Clint Barton, o Gavião Arqueiro.

Thor é uma adição bem-vinda à dinastia cinematográfica da Marvel e abre a temporada de blockbusters de 2011 em grande estilo. Ainda não consegue superar a força e, principalmente, o valor do primeiro Homem de Ferro, mas mostra com firmeza a eficiência da Marvel Studios e o investimento para elevar seus heróis ao panteão das divindades da sétima arte. Com a qualidade de Thor, torna-se ainda maior a expectativa por Capitão América (que estreia em julho de 2011) e, acima de tudo, a certeza de que Os Vingadores (em 2012) vai mudar os paradigmas das adaptações de quadrinhos no cinema. Os fãs agradecem.

PS: Como já é de praxe nos filmes da Marvel, no final dos créditos de Thor, existe uma cena adicional que já começa a tecer a trama que reunirá os heróis no filme Os Vingadores.

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