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Sucker Punch: Mundo Surreal

Sucker Punch: Mundo Surreal

Sucker Punch: Mundo Surreal (2011) é um filme controverso e que vem causando alguma polêmica desde sua estreia. É o tipo de filme 8 ou 80… ou você ama ou odeia. De fato, ninguém esperava pelo que estava por vir e, talvez por isso, muitos se decepcionaram (não é o meu caso). De fato, não é um filme de fácil digestão, mas ainda assim é bonito em sua concepção e muito divertido.

O diretor Zack Snyder, conhecido por Madrugada dos Mortos (2004), 300 (2007) e Watchmen (2009), descarrega toda a sua imaginação (e insanidade) neste que é seu primeiro roteiro original. Como um trabalho visivelmente autoral, Sucker Punch exulta características, estilos e técnicas do diretor. Toda a história é embasada por referências de outros gêneros cinematográficos e da cultura pop — cinema, música, animes, mangás, games, quadrinhos, RPG etc. servem como válvulas de escape para sua personagem-chave, assim como, na vida real, estas mídias atuam como fuga da realidade para muitas pessoas. Esta miscelânea dá vida a uma trama delirante e absurda conduzida com equilíbrio pelo cineasta, que consegue explorar todos os seus devaneios sem parecer ridículo. Embora soe pretensioso em alguns momentos, não é um filme para ser levado ao pé da letra. Parece mais um exercício de narrativa para Snyder, feito pelo puro prazer do entretenimento, tanto para ele quanto para o público.

A personagem-chave supracitada é Baby Doll (Emily Browning, extraordinariamente linda), uma jovem vítima de uma tragédia causada por seu ganancioso padrasto (Gerard Plunckett). Como resultado, ela é enclausurada num sanatório onde dentro de cinco dias será lobotomizada. Disposta a escapar dali antes, Baby Doll formula um ousado plano de fuga junto com as amigas Rocket (Jena Malone), Blondie (Vanessa Hudgens), Sweet Pea (Abbie Cornish) e Amber (Jamie Chung). Através de sua dança e sua imaginação, ela percorre os caminhos rumo à sua libertação, realizando missões fantásticas sob a tutela de um misterioso Homem Sábio (Scott Glenn). Repare que eu defino Baby Doll como uma personagem-chave porque ela é tanto uma protagonista quanto não é… uma sacada interessante do filme.

Como um delírio de seu criador, Sucker Punch é uma forte mistura de violência psicológica enervante, moralidade perturbadora, fantasia escura, ação estilizada, sexualidade inebriante e meninas-fetiches maravilhosas. Definitivamente, não é para corações fracos. O filme é a projeção de um pesadelo sob a máscara da diversão. Zack Snyder exalta a força feminina da atualidade de forma selvagem com suas princesas guerreiras no melhor estilo Lara Croft de Tomb Raider (2001) ou A Noiva de Kill Bill (2003). Elas são tanto fetiches como sinônimos de poder. O cineasta ainda abre seu espetáculo com um olhar encharcado sobre os conflitos que provocam a queda de sua Baby Doll. A abertura ao som da música “Sweet Dreams” cantada pela própria Emily Browning é simplesmente FODA! Aliás, a trilha sonora é sensacional, composta por nomes como Queen, Björk e Emiliana Torrini. Além da música de abertura, Emily canta outras duas músicas da trilha e manda bem em todas.

A ambientação explora uma representação de esquizofrenia que parece focado no que seria um período entre os anos 40 e 60. A realidade e a fantasia se mesclam como quadros de uma graphic novel e revezam à medida que as personagens extravasam. A fotografia é sombria, melancólica e carregada, com tonalidades mais frias para os momentos no sanatório e mais quentes para os devaneios fantásticos repletos de armas, combates e explosões. Um trabalho magistral. A estrutura peculiar do longa contribui mais ainda. As danças de Baby Doll transportam o espectador para mundos que simulam fases de video-games, onde as garotas precisam obter itens que lhes permitam completar sua missão e, assim, avançar para a fase seguinte. A trama segue como um grande jogo, alternando entre mundos extremamente diferentes. Snyder apresenta suas realidades através da lente de vários gêneros: steampunk, cyberpunk, fantasia, ficção científica, guerra etc., mas sem perder o bom senso. O surrealismo surge de forma consistente com a lógica da história e é incrível como o diretor consegue inserir elementos como samurais, orcs, zumbis, robôs e dragões na mesma história sem transformar tudo numa grande merda.

As beldades de Sucker Punch

Assim como o sonho em A Origem (2010), a esquizofrenia aqui é dividida em camadas. A primeira e menos explorada é a realidade cruel da instituição mental onde as meninas estão aprisionadas. A segunda é um delírio de menor grau, onde elas se imaginam num bordel burlesco comandado por um homem pomposo e controlador — uma atmosfera que lembra muito uma mistura de Moulin Rouge! (2001) com o recente Cisne Negro (2010). O terceiro, quando Baby Doll dança, apresenta o mais alto grau de ilusão, onde obstáculos devem ser ultrapassados e conquistas alcançadas em batalhas repletas de artilharia pesadas, espadachins gigantes, mechas e bombas devastadoras. Nestes mundos primorosamente imaginados, as garotas são praticamente invencíveis e destemidas… verdadeiras (e gostosas) heroínas. Já os antagonistas são igualmente formidáveis e assustadores. A atriz Carla Gugino surge como a exuberante Dra. Vera Gorski, que pode ser a psiquiatra do manicômio ou a coreógrafa burlesca ou a dona do bordel dependendo da realidade em questão. Com exceção do Homem Sábio, os homens são seres universalmente desprezíveis, expostos com seus piores defeitos na aparência e no caráter. Todos querem sexo e não medem esforços para consegui-lo. O pior de todos é o enfermeiro/empresário/cafetão Blue, diabolicamente interpretado por Oscar Isaac.

O filme, no entanto, escorrega em alguns momentos. Zack Snyder é um dos poucos cineastas que sabem como usar a câmera lenta num filme, mas aqui é impossível não notar alguns excessos. Ele às vezes exagera e prejudica momentos de ação que acabam retardados pelo recurso quando deveriam ser mais ágeis. Outra questão é que algumas personagens são mal desenvolvidas e ficam apagadas na história. Vanessa Hudgens e Jamie Chung são bastante preteridas pelo roteiro e Abbie Cornish deveria ter um pouco mais de força por seu papel na história. O final também soa um pouco forçado e poderia ter sido melhor. Snyder tenta explicar todas as nuances da trama em seus instantes finais quando deveria deixar as coisas mais subentendidas, para o público tirar suas próprias conclusões. Todavia, embora cause uma certa apatia num primeiro momento, a reviravolta é interessante. Ainda assim, são falhas que não atrapalham o todo.

Sucker Punch não é um filme complexo, apenas denso. Porém, muitas pessoas vão entrar no cinema sem a menor noção do que as espera, uma vez que o filme não teve grande divulgação para o público geral — pode parecer que não, mas isto pesa muito. A maioria dos que sabem alguma coisa sobre o filme, esperava uma história de ação pela mais pura ação, mas o diretor filosofou no final e inverteu pontos de vista — muitos provavelmente não vão gostar. Além disso, algumas pessoas não lidam bem com psicodelismo e surrealismo, pois suas mentes estão tão atreladas aos padrões e preceitos da realidade contemporânea que dificilmente conseguem olhar além daquilo que o limite de sua visão permite e não libertam sua criatividade e sua imaginação. Sucker Punch é sobre isso: sonhar e imaginar… ser livre. A guerra pode ser um inferno, mas a realidade pode ser ainda pior. Se você for capaz de ir além do convencional, provavelmente, conseguirá sobreviver.

No fim, Sucker Punch: Mundo Surreal é uma demonstração do que um surto de criatividade é capaz de fazer no cinema. Alguns não vão gostar, outros (como eu) vão delirar. O filme é FANTÁSTICO… e, como o nome em português deixa claro, SURREAL! Não é um filme convencional. Mas Zack Snyder nunca foi convencional. No mais, o que pode ser mais legal do que um filme com gostosas vestidas de colegiais enfrentando robôs e dragões com metralhadoras e katanas?! :-)

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  • Murilo

    cara esse filme é 8 ou 80 mesmo…ou vc gosta ou detesta…
    eu não aguentei ver até o final, e olha que gosto desse tipo de filme…rsrs…
    Talvez um dia tente ver de novo, até o fim…

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