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A Armadilha de Dante

Nível Heroico

A Armadilha de Dante

“Deixai toda esperança, ó vós que entrais.”

Veneza, 1756. Uma cidade insólita e enigmática. Os canais da Sereníssima compõem o cenário perfeito para uma série de cruéis assassinatos que evocam os castigos do Inferno descritos em A Divina Comédia (1307), de Dante Alighieri. Às vésperas do carnaval, o corpo de um jovem ator crucificado, com olhos fora das órbitas e uma estranha inscrição em latim talhada no peito, é encontrado no palco de um teatro. Francesco Loredan, 116º doge e autoridade máxima de Veneza, preocupado com a repercussão no governo, ordena uma investigação secreta, conduzida por Pietro Luigi Viravolta de Lansalt, o lendário Orquídea Negra. Melhor amigo de Casanova, este aventureiro destemido e sedutor aguarda sua execução nos Piombi, a cadeia sob a Ponte dos Suspiros. Libertado na dupla condição de não fugir da cidade nem procurar Anna Santamaria — grande amor de sua vida, cujo marido é responsável por sua prisão —, ele se torna uma espécie de guia nesta Veneza de luz e sombra, efervescente de cultura e desejos ocultos.

Viravolta é um homem apaixonado pela vida e pela liberdade, um patife, adúltero compulsivo, jogador e libertino, mas que carrega um código de honra próprio e paixão por sua cidade. Ele não foge de seu dever para com Veneza e nem da possibilidade de rever o amor que lhe fora proibido; é hábil com a espada, mestre em extrair informações das pessoas, inteligente e perspicaz. Pietro Viravolta é o homem indicado para salvar a Sereníssima da terrível conspiração que se avulta sobre ela. O Orquídea Negra mergulha na Divina Comédia e descobre o princípio organizativo das mortes: cada uma reproduz as punições dos Nove Círculos do Inferno… que culminarão no aparecimento do Diabo em pessoa.

Num primeiro momento, a impressão que se tem deste livro é que pode se tratar de um romance com teor fantástico e sobrenatural, considerando as referências ao Inferno, ao Diabo e à Monarquia Diabólica. No entanto, tudo no livro é apenas alegórico, utilizado unicamente para ambientar a trama e dar um charme especial aos personagens e suas relações geralmente pecaminosas. A história é permeada por uma atmosfera exótica e minuciosamente descrita pelo autor. O detalhamento histórico é tão admirável que em alguns momentos parece que estamos realmente vislumbrando a Veneza do século XVIII. De fato, a cidade desta época é fascinante — cheia de brilho, mas decadente e habitada por uma população fútil, cética e amoral — e, por si só, constitui um protagonista da história. O próprio Viravolta é o epíteto da atmosfera que paira na cidade. Ele é tanto uma cria da sordidez da Sereníssima quanto a Sereníssima é um retrato da alma dele e de todos os que vivem nela. Este clima sombrio é trabalhado com primor durante todo o texto e fornece uma moldura pesada para os elementos míticos do romance.

O livro é uma criação do roteirista e escritor francês Arnaud Delalande, conhecido por seus romances: The Underground Notre Dame (1998), The Church of Satan (2002) e The Music of the Dead (2003). A narrativa de A Armadilha de Dante (The Dante Trap, 2006) é bastante detalhada, mas fluída, e tem seus momentos de tensão e ação bem dosados. Como um bom suspense, os assassinatos são bem descritos; as investigações, destrinchadas; e as intrigas, mentiras e traições expostas em toda sua complexidade. É difícil sentir tédio durante a leitura. Além disso, os personagens são cativantes. Pietro Viravolta é o clássico bon-vivant das aventuras de capa-e-espada, mas é construído aos poucos. Seus momentos iniciais são demasiadamente espalhafatosos e afetam um pouco a sobriedade da história; porém, à medida que ele vai afundando nos segredos de Veneza, torna-se um personagem mais maduro e condizente com o que se espera do protagonista da história. Outras duas figuras interessantes são o senador Giovanni Campioni e a cortesã Luciana Saliestri, dois personagens que transbordam uma paixão encantadora e carregam uma história bonita, mas triste. Luciana, aliás, é uma das minhas personagens preferidas no livro. Há ainda a presença ilustre de Giacomo Casanova, o famoso escritor e colecionador de mulheres que é a clara inspiração para o personagem Orquídea Negra. No romance, Casanova é o melhor amigo de Viravolta e compartilha com ele o anseio pela vida e o cárcere nos Piombi. A prisão de Casanova, no entanto, é um fato verídico da época, quando o libertino tornou-se conhecido por sua fuga rocambolesca pelos telhados do Palácio Ducal de Veneza; a fuga é rapidamente mencionada no livro e dá um toque a mais à história. Por fim, temos os antagonistas que usam disfarces mitológicos para seus planos vis, com destaque para: Minos e Il Diavolo (também chamado de a Quimera). As identidades destes personagens são reveladas aos poucos, sendo que somente nas páginas finais descobrimos quem é Il Diavolo, o verdadeiro inimigo. Particularmente, não foi uma surpresa para mim a identidade do assassino; não é muito difícil descobrir quem é o vilão do final. Porém, em nenhum momento isto afeta a trama ou estraga a magia do romance. Pelo contrário, o desfecho é muito bom.

A Armadilha de Dante, como o próprio nome já deixa claro, se apropria do poema A Divina Comédia. O livro é dividido em nove capítulos, cada um representando um Círculo do Inferno, que por sua vez são divididos em três cantos, similar a separação usada por Alighieri em seu poema. A reprodução das mortes como castigos do Inferno é bastante criativa e instigante, mesmo para aqueles que nunca leram A Divina Comédia. É divertido procurar nos personagens os pecados que podem transformá-los em possíveis vítimas associando-os com um ou outro Círculo do Inferno — a identidade do assassino também pode ser prevista com este conceito. Além disso, são feitas referências a vários outros escritos históricos, como As Forças do Mal e as Monarquias Diabólicas (1436), de Anasthase Raziel, uma publicação sobre a qual eu não consegui nenhuma informação, mas que parece ter sido usada como base para muitas construções do livro, como a sociedade secreta dos Pássaros de Fogo e as teses sobre o mal.

Estas teses são uma parte curiosa do livro. Aparecem em determinados momentos como textos escritos por um dos personagens da trama, Andreas Vicario, inspirado em vários textos obscuros, como o de Raziel citado anteriormente. As teses citam o mal como algo concreto e perceptível. Ele destrincha o conceito do mal de forma minuciosa e até certo ponto obsessiva. Por outro lado, à medida que a trama avança, mostra muito sobre as intenções e índoles dos personagens e, junto com as intrigas políticas em constante evidência, faz uma crítica sutil às artimanhas comuns àqueles que estão no poder, principalmente quando discorre sobre a influência do mal na política. Todavia, as teses também impõem um ar lúgubre ao romance, o que pode incomodar alguns leitores.

A Armadilha de Dante é um livro complexo e visceral, mas ousado e dinâmico; é uma mistura magnífica de conspiração, suspense, aventura de capa-e-espada, misticismo e história de amores platônicos e impossíveis. Aconselho a leitura. O livro possui 418 páginas e foi publicado aqui no Brasil pela Editora Record. Ainda é possível encontrá-lo nas livrarias. A história do personagem Pietro Viravolta, o Orquídea Negra, tem ainda uma continuação no livro Os Crimes de La Fontaine (2009), outro thriller histórico de Arnaud Delalande que eu espero ansiosamente ver publicado aqui no Brasil em breve.



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