Cinema

O Vencedor

(Texto postado originalmente no Almanaque Virtual em 04/02/2011).

O Vencedor

O Vencedor (The Fighter, 2010) é forte e intenso. Mas, como um bom filme boxe, é também sobre superação. Porém, neste contexto, a vitória que dá nome ao título pode ter vários sentidos, haja vista a quantidade de personagens que se apresentam vitoriosos no fim da trama. O diretor David O. Russel nos entrega uma produção que foge do lugar comum na sua maneira de contar a história, mas com o triunfo de apresentar o drama de pessoas reais na tela de forma agradável e emocionante. Sim, O Vencedor é baseado em fatos reais.

Micky Ward (Mark Wahlberg) é um operário que sonha em fazer sucesso como um boxeador. Ele é irmão de Dicky Ecklund (Christian Bale), um boxeador decadente que se vangloria dos dias passados, quando supostamente derrubou Sugar Ray Leonard, e faz as vezes de treinador do irmão mais novo. Entretanto, Dicky é um homem relapso com suas obrigações e subjugado pelo vício em crack. Ele vive apegado às glórias passadas porque não tem qualquer esperança de futuro. Sua mãe, Alice (Melissa Leo), luta desesperadamente pelo sucesso do filho mais velho sem perceber o egoísmo com o qual trata o filho mais novo. Tudo trabalha contra Micky e ele, que também já não é mais nenhum garoto, começa a perder as esperanças de ser bem-sucedido até que conhece Charlene Fleming (Amy Adams) que o ajuda em sua carreira e coloca sua vida no caminho certo.

No princípio, o filme apresenta a história de modo habitual, dando a impressão de que realmente trata-se de uma trama sobre boxe como tantos outros. De fato, é uma trama sobre boxe, mas é incrível a crueza com que o diretor explora também todas as agruras pelas quais aqueles personagens têm que passar para conseguir conquistar seus intentos. No fim, o objetivo principal é este, mostrar que as pessoas são capazes de realizar seus sonhos se lutarem firmemente por eles. Lembra um pouco a história de Rocky Balboa (2006), mas precisamente o último filme, quando o boxeador já velho e exausto precisava superar todos os seus limites por um sonho. Porém, traz a mente ainda filmes como À Procura da Felicidade (2006) e Ray (2004), em que os protagonistas lutam por suas conquistas, ainda que não estejam num ringue.

Os atores, por sua vez, conseguem balancear toda esta carga emocional de forma excelente e nunca demasiada; desde os momentos mais felizes até os mais ridículos são levemente embaçados pela realidade miserável em que Ward e sua família vivem. Esta realidade é perceptível na película: ruas sempre vazias ou pouco movimentadas, casas arruinadas, ambiente sujo e a cultura das drogas onde Dicky vive afundado. Mais do que isso, existe ainda o ciclo a ser quebrado. Dicky é o cara sempre simpático que, no fundo, se frustra de sua condição. A mãe, para cada ato falho com Micky, é afogada ainda mais na lama pelas atitudes de Dicky. A pequena comunidade onde vivem, assim como o restante da família, simplesmente se omite e, por costume talvez, permanece cabisbaixa e sem perspectiva — um retrato do que é a sociedade de hoje, que, por pior que esteja a situação, dificilmente se move para tentar mudar as coisas.

As atuações estão ótimas. Christian Bale, conhecido como o Batman em O Cavaleiro das Trevas (2008), aqui parece mais com o Coringa que é seu algoz na produção supracitada. Apesar da complexidade do papel, Bale consegue imprimir carisma a um viciado em crack obcecado com seus dias de glória e cercado por uma comunidade que não o deixa esquecer este orgulho mesmo em meio a sua atual decadência. Seu Dicky é como um furacão que destrói tudo que vê pela frente, mas sempre com um sorriso no rosto, uma música cantarolada e um beijo da mãe querida. A mãe, aliás, é interpretada por Melissa Leo com uma maestria que chega a despertar ojeriza cada vez que ela pretere o filho dedicado em favor do filho transviado. Mark Wahlberg mostra que está adquirindo versatilidade com um indivíduo de voz mansa e educado que não consegue se impor perante a família, diferente dos tipos confiantes e decididos que ele normalmente representa nas telas. Por fim, Amy Adams completa o bom elenco e traz a doçura e a sobriedade para a trama que falta aos demais personagens; a química entre Wahlberg e a atriz são um alento na atmosfera deprimente que impera durante boa parte da película.

O Vencedor é o tipo de produção que inspira e que nos faz pensar um pouco nos rumos de nossas próprias vidas, aonde queremos chegar e as decisões que precisamos tomar para isto. Acima de tudo, é um filme sobre a família e a importância dela na superação dos desafios independente dos prós e dos contras inerentes desta união. Pode parecer uma história de autoajuda, mas no fundo é a história real de dois irmãos que juntos (e somente juntos) superaram suas diferenças e seus desafios e venceram. No fim, todo mundo vence… eles que estão na tela e nós que estamos assistindo.

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