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Enterrado Vivo

Enterrado Vivo

Enterrado Vivo (Buried, 2010) é um filme como poucos. O diretor espanhol Rodrigo Cortés e o ator Ryan Reynolds desenvolvem uma das mais ambiciosas premissas cinematográficas de forma angustiante e inteligente.

Reynolds interpreta Paul Conroy, um motorista de caminhão estadunidense contratado pela empresa CRT para trabalhar com carregamentos no Iraque. Durante uma viagem, seu comboio é atacado por insurgentes iraquianos e Paul é enterrado num caixão de madeira munido somente de um telefone celular árabe e um isqueiro, itens aparentemente deixados lá por seus captores. A partir daí, começa uma corrida contra o oxigênio em que Paul luta desesperadamente por sua vida enquanto nós, espectadores, acompanhamos o desenrolar desta história claustrofóbica.

Aliás, claustrofobia é a palavra que define a película. Durante seus 91 minutos, a agonia do personagem torna-se a nossa agonia, que sentimos a ansiedade de Paul a cada crise e sufocamos com ele a cada esforço de respiração. Mérito para o ator Ryan Reynolds que consegue passar adequadamente o clima da situação numa de suas melhores atuações. Mérito também para o diretor Cortés, que usa sabiamente: cortes de câmera, planos, iluminação e enquadramento para manter o ritmo de um enredo que tinha tudo para ser parado e maçante. A habilidade que ele demonstra para filmar num espaço tão pequeno é capaz de intrigar uma mente cinéfila apegada a detalhes técnicos.

A história é desenvolvida exclusivamente dentro do caixão e sob a ótica de Conroy. Não existem tomadas externas e a única interação com outros personagens é feita através do celular. A ideia já foi explorada em outros bons filmes, como Por Um Fio (Phone Booth, 2002) e Mar Aberto (Open Water, 2003), onde os protagonistas também passam por situações tensas sob a restrição de um único cenário. Entretanto, Chris Sparling soube ser inventivo e eficiente na construção de seu roteiro. O drama de Conroy não se restringe à sua prisão, mas ultrapassa os limites daquele espaço. Suas ligações alcançam: seus familiares, seus empregadores, seus sequestradores e, por fim, Dan Brenner (Robert Paterson), um agente das Forças Especiais encarregado de encontrar americanos raptados no Iraque.

Paul passa por várias pessoas que demonstram maior ou menor sensibilidade em relação ao seu sofrimento, mas que também estão presas as responsabilidades de seus cargos, desde a atendente telefônica do 911 (a emergência norte-americana) que não acredita totalmente naquela história até o empregador de Conroy que não deseja que sua empresa tenha sua imagem manchada por aquele evento. A interação entre Paul e estas pessoas destaca o quanto o ser humano pode ser mesquinho, preocupado somente consigo e com seus interesses. A trama vai além ao expor uma análise sócio-política sobre as consequências desta insensibilidade humana na incursão dos Estados Unidos no Iraque. Enquanto os cidadãos americanos lutam para sobreviver a uma guerra cujas motivações são controversas, as figuras no poder permanecem despreocupadas “sentadas em suas salas com ar-condicionado”. Brenner é ainda o porta-voz desta impostura, pois, assim como o governo norte-americano discursava para os soldados falsas esperanças quando eles desejavam somente voltar para casa e rever suas famílias, o agente fala para Paul o que ele quer ouvir. Neste aspecto político, Enterrado Vivo lembra um pouco o recente Tropa de Elite 2 (2010).

O filme, no entanto, tem problemas. O diretor geralmente consegue inserir o público no caixão junto com Paul, mas, em alguns momentos, as noções de espaço parecem irreais, o que pode causar alguma estranheza. Além disso, algumas sequências parecem ter sido colocadas somente para manter a dramaticidade ou causar algum impacto imediato, como o momento em que ele liga para a mãe ou quando tem que lidar com um intruso indesejável. Como o ritmo é lento, a impressão é que Cortés tenta deixar a tensão constantemente elevada para que o público não sucumba ao tédio. Todavia, em alguns momentos, parece forçado.

Com suas falhas e seus acertos, Rodrigo Cortés e Ryan Reynolds merecem os créditos por executarem com louvor esta obra de baixo orçamento e extraírem o máximo das limitações de sua narrativa. Enterrado Vivo é uma experiência singular e promete ser um dos melhores filmes do ano.

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