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O Retrato de Dorian Gray

O Retrato de Dorian Gray

O Retrato de Dorian Gray (Dorian Gray) foi o último filme que consegui assistir no Festival do Rio 2010 antes do encerramento. Gostaria de ter prestigiado mais filmes, porém os horários das sessões e meus horários, infelizmente, não estavam em plena sintonia. Mesmo assim, pude fechar com louvor.

A sessão, na última quarta-feira, dia 6, não tinha a animação ou a expectativa que presenciei em outras exibições do evento, até porque, Dorian Gray não era uma produção particularmente esperada e muito menos martelada pela mídia. Eu mesmo, confesso que não esperava muito do filme, principalmente porque vi um trailer meses atrás que não empolgou. Porém, fico feliz em dizer que… me surpreendeu.

O Retrato de Dorian Gray é um daqueles filmes que, assim como seu protagonista, chega de mansinho, meio quieto, sem mostrar muito a que veio e, de repente, te seduz de forma arrebatadora. Eu adorei!

A história, já exaustivamente interpretada no cinema, é baseada no romance publicado por Oscar Wilde, um dos maiores escritores do século XIX. Eu sou fã da obra e tive o prazer de ler o livro na adolescência, por isso, é impossível não fazer comparações. Contudo, um roteiro adaptado não precisa ser fiel para ser bom. O filme de 2009 não é totalmente fiel, mas é bom. Muitos conceitos do livro estão lá, embora às vezes explorados de forma rápida e superficial por causa dos 112 minutos de duração. As críticas sociais e as conotações psicológicas que Wilde explorara de forma tão fascinante — e, porque não dizer, lasciva — são tratadas com adequação no filme, principalmente pela atuação magnífica de Colin Firth, como o carismática e perverso Lorde Henry Wotton. O ator rouba a cena e é, sem dúvida, o ponto alto da película.

A trama acompanha a trajetória de decadência e devassidão de Dorian Gray (Ben Barnes, de As Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian), um jovem ingênuo e belo que é seduzido pelos prazeres da vida quando se muda para Londres. Lá, ele é instigado e manipulado pelas palavras de Lorde Henry (Firth), que, aos poucos, pervertem seu caráter nobre e jovial. Nesse intervalo, Dorian descobre sua magnificência através de um quadro pintado por Basil Hallward (Ben Chaplin), um pintor que vê no rapaz um modelo como nenhum outro e que, com o tempo, passa a nutrir por ele sentimentos além da simples amizade. Envaidecido pela perfeição retratada na obra-prima do amigo, Dorian expressa seu narcisismo num desejo ferrenho de manter sua beleza para sempre; um desejo tão forte que se torna realidade. O quadro transforma-se no reflexo podre e envelhecido dos pecados de Dorian, enquanto ele mantém-se jovial por toda a eternidade. Sua sina, no entanto, muda quando, décadas mais tarde, ele conhece a decidida Emily Wotton (a linda Rebecca Hall, de Vicky Cristina Barcelona), filha do Lord Henry, que não aprova a relação entre os dois.

O longa mostra com eficiência os valores deturpados da sociedade britânica do século XIX, com sequências que exploram a corrupção e a luxúria sem descambar para imagens apelativas. As cenas de nudez existem, como não podia deixar de ser nessa história, mas surgem de forma natural, conduzidas pelos arroubos do protagonista. Dorian transita com soberba entre essas pessoas, que escondem depravações e traições amorosas atrás de máscaras de virtude, e são facilmente tentadas pela presença inebriante do rapaz. Até mesmo seu amigo, Basil, sucumbe perante ele. O próprio Dorian não escapa a si mesmo, ora extasiado por sua juventude eterna, ora atormentado pela figura de sua alma horrenda. É interessante assistir o filme e constatar que ele causa a mesma sensação conflitante de admiração e repúdio por Dorian que a obra original. Num momento, você abomina as ações do personagem e se sente bem com isso; em outro, você se identifica com ele, e se sente mal por isso.

O filme não é tão impactante quando o livro, admito, mas ainda consegue despertar emoções. Isto é que importa!

As principais diferenças entre as obras cinematográfica e literária estão: no trágico relacionamento entre Sibyl e Dorian; na forma como é tratada a relação entre Dorian e Basil, que é mais explícita no filme; e na existência de Emily Wotton, que é uma personagem criada especificamente para a adaptação e que muda razoavelmente os rumos da história. O final é parecido com a versão original, mas alterado em função da introdução da filha de Lorde Henry e dos questionamentos que este último começa a fazer por causa da juventude imutável de Dorian, atitude que não é tomada no livro.

No mais, o longa segue de forma fiel e transmite bem a atmosfera daquela época na caracterização dos personagens, na sua bela fotografia e no seu visual sombrio. Além disso, as sequências que mostram o quadro deformado são macabras, embora eu não tenha gostado muito dos momentos quando a cena é exposta sob o ponto de vista do quadro. O diretor Oliver Parker, que já tem experiência neste ramo de adaptações com Othelo (de Shakespeare) e O Marido Ideal (também de Oscar Wilde), faz um bom trabalho aqui. Os atores também estão adequados, com o destaque supracitado para Colin Firth e também para Rebecca Hall.

O Retrato de Dorian Gray estreou em 2009 no exterior e só agora chegou no Brasil, via Festival do Rio. Porém, que eu saiba, não existe previsão para seu lançamento no circuito principal ou mesmo direto para DVD.

Mas fica a dica. Se tiver a oportunidade de ver… veja!

Qualquer dia, eu escrevo alguma coisa sobre o livro. :-)

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  • Marília

    Parabéns pela crítica! Transmite com eficiência, clareza e eloquência incrível os pontos em comum e divergentes entre filme e livro. Demonstra de maneira quase sinestésica a abordagem feita por meio da adaptação cinematográfica. Meus parabéns!! :D

  • sofia martínez

    Muito boa adaptação, é bastante divertido e, certamente, me faz lembrar de uma nova série chamada Penny Dreadful que leva esses personagens clássicos como Dorian Gray e Frankenstein que o torna mais interessante.

    • http://www.nivelepico.com/ Alan Barcelos

      Sim, estou vendo a série. Penny Dreadful usa muitos elementos e personagens da literatura britânica e do terror clássico. Dorian Gray é um personagem famoso da literatura britânica, que na série está adaptado para a história que a série quer contar e o cenário dela.

      Existe uma HQ do Alan Moore chamada A Liga Extraordinária, que tem essa mesma premissa de juntar personagens e elementos clássicos da literatura britânica. A HQ é ótima, e foi adaptada em um filme que é ruim. Na verdade, o que já vi de Penny Dreadful é o que Liga Extraordinária poderia ter sido no cinema. A série é muito boa. :)

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